Conflitos armados deixam 28 milhões de crianças sem escola no mundo
05-Jul-2011



Escola Primária de Mugosi, que recebe a maioria das crianças do campo de regufiados Kahe, na República Democrática do Congo

“A educação desempenha um papel central não só na prevenção de conflitos armados, mas, sobretudo, na reconstrução dos países afetados por eles. É uma importante força de paz que tem sido esquecida e negligenciada pela comunidade internacional.” Esse é o alerta do diretor de educação da Unesco no Brasil, Paolo Fontani, a partir do relatório A crise oculta: conflitos armados e educação, elaborado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e apresentado nessa segunda-feira (4/7), em Genebra, na Suíça.

Ao todo, 42% das crianças que estão fora da escola no mundo vivem em países afetados por conflitos, segundo o documento. Isso equivale a 28 milhões de estudantes afastados da educação por causa da violência. “As dificuldades que eles enfrentam vão desde o impedimento de chegar à escola, passando pela falta de professores, salas de aula, até os traumas psicológicos deixados pela violência”, aponta o diretor da Unesco.

Em abril do ano 2000, representantes de 160 países se reuniram em Dacar, no Senegal no Fórum Mundial de Educação e criaram a iniciativa Educação para Todos que monitora o cumprimento de seis metas em educação até 2015.

O documento, produzido pela equipe do Relatório de Monitoramento Global de Educação Para Todos (EPT), aponta que apenas 2% dos recursos destinados à reconstrução de países afetados pela violência são aplicados em educação. Distante das prioridades no cessar-fogo, o setor ainda sofre com os desvios de dinheiro para gastos militares.

“Seriam necessários apenas seis dias de gastos militares dos países doadores para preencher o déficit de 16 bilhões de dólares no financiamento da iniciativa de Educação para Todos”, afirma o texto. A Unesco sugere a criação de um fundo específico para educação, onde haja contribuição direta dos doadores e onde se consiga elevar os investimentos na área.

O relatório adverte ainda que a falta de medidas rápidas e contínuas na educação, imediatamente após o conflito, pode dificultar a consolidação da paz, especialmente se ainda estiverem vigentes mecanismos de exclusão, intolerância e injustiça.

Veja também:
- “A educação é quase tudo num país em reconstrução”, Ondjaki
- Veja fotos da Unesco

Segundo Fontani, “os conflitos geram um impacto grande no tecido social, por isso é preciso uma estratégia diferenciada, uma educação que envolva toda a comunidade, que privilegie a formação de professores, forneça materiais adequados e desenvolva
metodologias participativas. Enfim, é necessário construir um processo de paz no interior de cada escola”.

O estupro como arma de guerra

De acordo com o monitoramento, abusos sexuais – reconhecidos como crimes de guerra – integram a lista de violações aos direitos humanos nessas regiões, vitimando principalmente as meninas.

Na República Democrática do Congo, conhecida como a “capital mundial das violações”, 400 mil mulheres são anualmente vítimas de violência sexual, o que equivale a 1.152 incidentes diários. Dessas, um terço é menor de idade, sendo que 13% têm menos de 10 anos.

Ele avalia que o medo e a insegurança também são fatores que impedem milhares de alunos de continuarem os estudos. Exemplos não faltam: no Afeganistão, no início de 2010, mais de 450 escolas estavam fechadas por falta de segurança. Em Mogadiscio, capital da Somália, 60 escolas foram fechadas em 2009 e pelo menos 10 foram ocupadas por forças militares.

No Iraque, os anos de violência ocasionados pela Guerra do Golfo (1990-1991) e agravados pela invasão das tropas aliadas em 2003, foram responsáveis por destruir grande parte da infra-estrutura escolar, além de terem forçado centenas de professores e alunos a abandonarem o país. Em Gaza, nos territórios autônomos palestinos, os ataques militares israelenses em 2008 e 2009 deixaram 350 crianças mortas, 1.815 feridos e 280 escolas danificadas, de acordo com o documento.

Tomados como alvos legítimos das forças militares envolvidas nos conflitos contemporâneos, alunos, escolas e professores acabam sendo vítimas de ataques, seqüestros e prisões, caracterizando a violência como o maior obstáculo a ser superado neste século para o avanço da educação, conclui o relatório.

Depoimento

Escola de crianças no campo de refugiados Kakuma, no Quênia

Durante a entrevista o diretor da Unesco, Paolo Fontani, descreveu sua experiência no Kosovo, região ao sul da antiga Iugoslávia que, em 1999, enfrentou uma guerra que resultou em centenas de mortos. Veja abaixo, a íntegra do seu depoimento.

“Cheguei imediatamente após o conflito, um conflito com componentes étnicos onde o ódio, a incompreensão e a intolerância eram vigentes. Fui para ajudar em um programa de educação e direitos humanos. Assim que desembarquei vi cerca de 70% dos edifícios destruídos. Fazia 25ºC negativos e havia 90 mil estudantes fora da escola. Eram muitas as dificuldades, mas assim mesmo a educação era vista como força de paz. Nosso projeto, Educação para a Democracia e os Direitos Humanos, tinha como um de seus objetivos construir uma nova geração que pudesse conviver em uma sociedade pluralista, tolerante e democrática. Para isso, foi necessário introduzir elementos que o conflito tinha se encarregado de destruir, como a resolução pacífica de conflitos e a convivência de diferentes etnias nos mesmos centros educativos. Posso dizer que professores, alunos e famílias foram transformados e sofreram um impacto positivo, trazendo bons resultados.”

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