Revolução educacional na África
04-Out-2010

Celia W. Dugger - JORNAL DO BRASIL

Escolas para jovens negros dão bons resultados, com mais aulas e, além de matérias, uma orientação para a vida

Gcobani Mndini, jovem de 17 anos tímido e magro, já era gângster quando começou o nono ano. Sua pequena gangue, que se autodenominava Tomates, roubava pessoas, brigava com meninas e ficava alterada com Jack Daniel's e maconha.

- Eu me juntei à gangue porque queria pertencer a alguma coisa - diz Gcobani.

Desde então, descobriu que se encaixa no último lugar que es-perava: numa escola de ensino médio particular, que pode estar reinventando a educação para adolescentes das cidades negras da África do Sul.

Gcobani deixou a vida de gangue e se transformou em um talentoso estudante de ciência em busca de uma vaga nas melhores universidades do país. Como muitas das escolas públicas da África do Sul reprovaram uma geração pós-apartheid de crianças de cidades pobres e áreas rurais, um movimento de educadores, de filantropos e de pais desesperados busca cada vez mais alternativas.

Durante uma década, bancos e fundações patrocinaram estudantes de cidades promissoras para atender a elite, em sua maioria escolas brancas. Mas, agora, novas escolas particulares estão atendendo crianças negras, pobres e da classe trabahadora, dando ao sistema público dominante uma nova competição.

Os 500 estudantes das três escolas (conhecidas como Leap) representam um caminho. Todos os alunos, incluindo Gcobani, vêm de cidades negras.

Mudança de foco

Cada vez mais famílias da África do Sul, cansadas de verem professores de escolas públicas desmotivados, estão juntando dinheiro para enviar os filhos para escolas particulares, geralmente mantidas em fábricas abandonadas, shoppings e cabanas.

De forma surpreendente, descobriu-se que professores de escolas públicas descontentes estão entre os pais dos estudantes nessas novas escolas. Estudos indicam que essas escolas são cada vez mais populares.

- Alguns perguntam: Por que os pais não estão reclamando sobre o estado espantoso da educação pública?" - diz Ann Bernstein, diretora executiva do Centro de Em-presa e Desenvolvimento, com sede em Johanesburgo, que conduziu o estudo. - Eles estão andando com as próprias pernas.

As escolas Leap têm uma ética de trabalho dura. Todos os dias, os estudantes, além de tempo maior de estudo, têm aula de orientação para a vida, na qual falam de problemas pessoais que podem afetar a educação.

Depois de um ano negando que estava em uma gangue, Gcobani disse que foi somente numa daquelas aulas que começou a enfrentar as consequências de suas escolhas, mesmo que seus amigos da cidade estivessem morrendo em brigas com facas.

Combinação certeira

A mistura de rigor acadêmico com honestidade emocional com-pensou. Alunos das escolas Leap superaram a média nacional nas provas de vestibular. Nove entre 10 passaram nas provas nos últimos cinco anos, e a maioria cursou ensino superior.

Nacionalmente, o desempenho nas provas diminuiu todos os anos por seis anos, com apenas seis entre 10 passando no ano de 2009. Escolas públicas, muitas delas com professores mal preparados, reprovam muitas crianças negras e pobres, garantem os especialistas.

As escolas Leap foram um ideia de John Gilmour, treinador e educador que deixou uma posição confortável como diretor de uma escola de ensino médio preparatória, com maioria de brancos, para dar início a essas escolas Leap. As escolas - duas localizadas na Cidade do Cabo e uma em Johanesburgo - são estruturas utilitárias, geralmente com chão gasto, integrantes dedicados, que trabalham longas horas por salário modesto, e cada vez mais corais de alunos. A maior parte do gasto anual de US$ 4 mil por estudante é conseguida na iniciativa privada. O governo contribui com US$ 800, por estudante.

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