Como resolver o x do problema da leitura?
23-Abr-2012


» TARCISIO ZANDONADE
Professor da UnB, aposentado

Publicação: 23/04/2012 04:00

O Correio Braziliense publica regularmente oportunas matérias sobre a mais importante atividade na aprendizagem: a leitura. O tema é quase sempre analisado sob a perspectiva da falência do ensino da leitura, ou seja, conclui-se que o leitor brasileiro lê, mas não entende. Tony Buzan, bem-sucedido autor inglês, lança pela BBC, desde 1974, periódicas edições ou reimpressões do livro Use your head (Use a cabeça). O quarto capítulo da obra trata da leitura, que para Buzan é o inter-relacionamento total do indivíduo com a informação simbólica. Esse inter-relacionamento desenvolve-se em sete passos.

São eles os seguintes: 1. Reconhecimento — o aprendiz de leitor aprende os símbolos das letras e dos números; 2. Assimilação — o processo físico, pelo qual a luz é refletida a partir da palavra e recebida pelo olho do leitor e depois transmitida ao seu cérebro pelo nervo ótico; 3. Compreensão — o leitor faz uma ligação das informações que está lendo com as outras partes do mesmo texto; 4. Entendimento — o leitor analisa, critica, avalia, seleciona e rejeita o que está lendo e integra a informação que lê com todo o seu conhecimento anterior, fazendo as conexões entre os conceitos aprendidos. Assim, quanto mais livros o leitor lê, mais entenderá o próximo livro; 5. Retenção — o leitor armazena na memória o resultado de todos os passos anteriores, criando uma verdadeira biblioteca na sua cabeça; 6. Revocação — o leitor “chama de volta”, recupera ou lembra o que leu, no momento em precisa da informação armazenada na memória; 7. Comunicação — o nível mais profundo, que é atingido somente quando se consegue transmitir aquilo que foi lido.

Mas como se dá o processo ótico da assimilação? Ao ler um texto, parece que os olhos se movimentam suavemente, do início até o fim de uma linha, e depois voltam ao início da linha seguinte, até o fim do texto. Esse processo, porém, é muito mais rico do que parece: os olhos movem-se em saltos rápidos (contrações) e rápidas fixações (estabilizações) pelas linhas do texto. A leitura acontece somente durante as fixações, que ocorrem de três a quatro vezes por segundo. Os olhos precisam dessa fixação ou parada para “fotografar” uma palavra ou uma sequência de palavras. A sensação de continuidade na leitura, portanto, é apenas uma ilusão. Esse processo foi descoberto somente no século 19, pelo oftalmologista francês Emil Javal. Conhecendo esse maravilhoso processo neuropsicológico, quais lições podem ser tiradas? Antes de tudo, o leitor deverá perceber que ler é uma técnica e uma arte. Além disso, deverá saber que mais de 80% do que se aprende é resultado da leitura.

Conclui-se, então, que os pedagogos e os gestores educacionais, incluindo a família, devem conhecer a grande potencialidade da criança para aprender a ler. Com certeza, conhecendo a maravilha do processo de leitura, a criança será motivada a gostar da ler. Algumas lições podem ser tiradas dessas reflexões: a. A criança aprende a ler com muita facilidade, motivação e alegria, e com relativa rapidez. Os educadores, de modo geral, conseguem ensinar a ler de forma eficiente. Entretanto, se a criança não tiver o que ler, chegará somente ao nível 2 da leitura. Virá a ser mais um brasileiro que lê, mas não entende; b. Todas as escolas devem ter uma boa biblioteca, pois uma escola sem biblioteca não ensina a ler, apenas engana. As crianças cujos pais leem em casa lerão mais e melhor. Mas a responsabilidade de providenciar os livros para a leitura é da biblioteca escolar. Além disso, os jovens gostam de livros atualizados, bonitos, limpos e bem conservados. Não é com livros descartados de outras coleções que se vai motivar a leitura; c. Biblioteca escolar sem bibliotecário para organizá-la e administrá-la torna-se logo um depósito de papel velho. Há escolas públicas no Distrito Federal que, por economia, fecharam as bibliotecas e abriram salas de leitura, para não contratar bibliotecários. Para que uma biblioteca escolar funcione bem, é preciso também que os bibliotecários escolares sejam remunerados, pelo menos, no mesmo nível dos professores, uma vez que o bibliotecário é o melhor colaborador do professor, tanto na educação dos alunos quanto na atualização dos próprios professores.
 
fonte: artigo publicado no jornal Correio Braziliense em 23/4/2012 
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