Em Brasília, filho apanha do pai na escola
09-Mar-2012
Servidor público bate em menino de 3 anos e oito meses em instituição particular na Asa Sul. Repreendido, leva a criança para o banheiro e continua o espancamento. Após fugir do local, o agressor é autuado por maus-tratos

» LUCAS TOLENTINO - Correio Braziiense

Publicação: 09/03/2012 02:00

Os hematomas no menino foram registrados pela câmera do celular de um tenente-coronel da PM, que interveio na agressão  (Fotos: Ed Alves/CB/D.A Press - 8/3/12)  
Os hematomas no menino foram registrados pela câmera do celular de um tenente-coronel da PM, que interveio na agressão

Em uma cena que deixou perplexos os pais, alunos e funcionários de uma escola particular na Asa Sul, um gerente executivo da Caixa Econômica Federal espancou o filho de 3 anos e oito meses no pátio do colégio. O servidor público, de 46 anos, deu vários tapas nas pernas e no bumbum da criança. Testemunhas afirmaram que ele ainda bateu no menino com o próprio cinto. Os golpes deixaram hematomas pelo corpo da vítima. Após fugir da instituição de ensino, o agressor foi encontrado em casa e autuado pelo crime de maus-tratos. O acusado responderá em liberdade.

Eram 7h30 quando o gerente executivo estacionou em frente à escola. O filho não queria ir para o colégio. O pai começou, então, a agredi-lo na entrada da instituição. Várias pessoas viram o ataque e tentaram contê-lo. Nervoso, ele teria ignorado os pedidos e levado o garoto, aos prantos, até o banheiro do ginásio da escola. “A criança gritou muito. Deu para ouvir um barulho que parecia de chicotadas”, afirmou o servidor público Antônio Elias de Oliveira, uma das testemunhas. Segundo ele, cerca de 10 pessoas, entre responsáveis por crianças e funcionários, juntaram-se, em vão, para tentar impedir a ira do pai da vítima.

Como em um dia normal, o tenente-coronel Antônio Carlos Santana, do Departamento Operacional da Polícia Militar, tinha ido ao centro educacional para deixar o filho. À paisana, ele presenciou o episódio de fúria do servidor público. O tenente-coronel entrou no banheiro em que a criança de 3 anos era espancada. “Vi que ele estava colocando o cinto de volta na calça”, descreveu. Antônio Carlos se apresentou como policial e ordenou que o agressor parasse. “Então, ele disse: ‘Quem cuida do meu filho sou eu’. Além disso, ainda perguntou se eu sabia com quem estava falando. Acabou decidindo ir embora e carregou a criança”, acrescentou o militar.

O apoio de uma equipe da Polícia Militar foi solicitado. O grupo seguiu para a casa da família da vítima, no Sudoeste. Encontraram pai e filho e deram prosseguimento à prisão. Ambos foram levados à Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), no Departamento de Polícia Especializada (DPE), nas proximidades do Parque da Cidade. “O pai usou um método muito vil e cruel. O menino estava insistindo que não queria ficar na escola. Ele é uma criança, sem qualquer chance de defesa”, analisou o tenente-coronel Antônio Carlos. “Foi uma cena horrível, chocante. O pai estava muito bravo e não quis nenhuma conversa”, relembrou Antôno Elias.

Liberação
Um projeto de lei que tramita no Congresso Nacional, o da chamada Lei da Palmada (leia Para saber mais), tem o objetivo de proteger os direitos das crianças e dos adolescentes de não sofrerem agressões físicas dos pais com a desculpa de estarem sendo educados. A matéria, no entanto, levantou polêmica e ainda não foi aprovada pelo Legislativo federal. Assim, não está em vigor. Apesar disso, as punições, em casos como o de ontem, ocorrem com base no Código Penal.

O pai que espancou o filho assinou um termo circunstanciado na DPCA e, depois de prestar depoimento, foi liberado. A delegada-chefe da unidade policial, Valéria Martirena, explicou que o acusado responderá pelo crime de maus-tratos, cuja pena pode chegar a até um ano de prisão (leia O que diz a lei). “Ele compareceu à delegacia, foi ouvido e assinou um termo em que se compromete a comparecer perante a Justiça”, explicou a investigadora. De acordo com ela, a criança foi encaminhada ao Instituto de Medicina Legal (IML) para fazer exame de corpo de delito.

A confusão levou toda a família para a delegacia. O pai compareceu à unidade acompanhado de um advogado. A mãe da vítima e a babá da criança passaram a manhã e o início da tarde na DPCA prestando esclarecimentos. O tenente-coronel da PM e outra testemunha também foram ouvidos. Enquanto os envolvidos prestavam esclarecimentos, o garoto se divertia com os brinquedos colocados para entreter as crianças na recepção da DPCA.

Os familiares do menino deixaram a delegacia sem dar entrevistas. A delegada-chefe acredita que o agressor passou da medida. “No Brasil, é cultural bater na criança para educar. O que não pode acontecer é o exagero. E, nesse caso, bater de cinto é, sim, um excesso”, avaliou. Segundo Valéria Martirena, o caso vai se desenrolar em vias judiciais. “Quem avalia, por exemplo, a questão da guarda da criança é o juiz ou o conselho tutelar”, explicou.

Colaborou Antonio Temóteo

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