Campanha para não ir à universidade PDF Imprimir E-mail
13-Set-2010
O GLOBO

Com população altamente qualificada, governo incentiva opção por escolas técnicas

SEUL. A virada da Coreia do Sul, que superou em poucas décadas o passado de subdesenvolvimento, foi apoiada numa campanha educacional maciça. Quando a ocupação japonesa acabou, em 1945, 78% da população eram analfabetos, segundo dados do Ministério da Educação, Ciência e Tecnologia do país. Hoje, a parcela que não sabe ler e escrever corresponde a irrisórios 1,7% do total de 48 milhões de pessoas, e nada menos do que 83,8% da população têm nível superior, contra 27,2% em 1980.

O problema é que a economia sul-coreana não tem capacidade para absorver essa mão de obra tão qualificada (mesmo assim, a taxa de desemprego é baixíssima, de 3,2% - nos EUA, por exemplo, é o triplo, 9,6%). Por isso, o governo iniciou uma campanha para incentivar os jovens a procurarem escolas técnicas: - Temos uma população altamente qualificada, mas não temos força de trabalho de nível técnico, trabalhadores manuais.

Mas há empresas precisando deste tipo de mão de obra. Então, estamos trabalhando para formar esse contingente, concentrando esforços em escolas de nível técnico especializado, fazendo campanhas nesse sentido - diz o porta-voz do Ministério da Educação, Pyun Kyung-Bum.

Lá, o ensino fundamental é gratuito, com almoço para os mais pobres. Já o ensino médio pode ser privado ou público, que não é gratuito, só é mais barato. A universidade é paga: - O governo tornou obrigatório o ensino fundamental. E a população recebeu com entusiasmo.

Na visão dos coreanos, é preciso estudar muito para obter sucesso. Entre os agricultores, quando não têm dinheiro, vendem gado e até terras para poder custear os estudos dos filhos - diz Pyun Kyung-Bum.

Enquanto isso, no Brasil, segundo dados divulgados pelo IBGE na última semana, o analfabetismo atinge 9,7% da população, o que corresponde a 14,1 milhões de pessoas. Para o professor da USP Naércio Menezes Filho, o péssimo índice é reflexo de três décadas - as de 60, 70 e 80 - perdidas para a educação.

- Foram décadas em que o país investiu em máquinas e equipamentos e deixou o capital humano para trás. Só nos anos 90 a educação começou a ser universalizada e, em 2000, o acesso ao ensino médio dobrou.

Sergei Soares, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), lembra que há uma diferença cultural: os coreanos dão muito valor à educação: - Na Coreia, levar os filhos à universidade é quase uma religião. Aqui no Brasil, as famílias fazem tudo para comprar um apartamento. Mas isso está começando a mudar.

Taxa de natalidade é a menor do mundo O porta-voz do Ministério da Educação sul-coreano diz que o avanço no setor foi fundamental para o país. A economia saiu de um Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) de US$ 2 bilhões em 1960, para cerca de US$ 900 bilhões no ano passado.

- Antes, quando éramos uma sociedade agrícola, precisávamos de trabalhos manuais.

Agora, precisamos de seus cérebros, de suas habilidades.

A obsessão pela educação, no entanto, fez a taxa de natalidade da Coreia do Sul ser a menor do mundo: 1,08%, em 2008. A causa é o alto custo dos cursos complementares e universitários.

- Há escolas e universidades vazias, fechando por falta de alunos. Estamos tendo que reduzir o número de professores.

Para mudar o quadro, o governo tem dado prioridade no crédito habitacional a quem tem mais crianças. E, na licençamaternidade, a mulher recebe salário integral por três meses e US$ 500 por um ano.

(Liane Thedim)

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