O cientista brasileiro comemora o prêmio de R$ 4,4 milhões e
comenta suas chances ao Nobel. Leia entrevista
Natasha Madov, iG São Paulo | 29/07/2010
21:31
Foto: Manoel Marques/Revista Brasileiros
Miguel Nicolelis: um candidato brasileiro ao
Nobel
A ciência brasileira comemora: o neurocientista paulistano
Miguel Nicolelis ganhou,
por seu pioneirismo, de um prêmio de US$2,5 milhões (R$ 4,4 milhões),
um dos mais cobiçados dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados
Unidos (NIH, na sigla em inglês).
A verba será doada ao longo de cinco anos e servirá para aprofundar suas
pesquisas sobre o funcionamento do sistema nervoso e a interação
cérebro-máquina.“O projeto é importantíssimo. Poucos recebem esse volume
de dinheiro para um projeto nos Estados Unidos”, disse ao iG o
professor titular de neurocirurgia da Faculdade de Medicina da USP
Manoel Jacobsen Teixeira.
"O Nicolelis é um entusiasta. Para criar novas tecnologias, tem sonhar
porque elas ainda não existem. Se você não tiver alma de artista, não
será um investigador. Ele tem essa alma. E é um investigador completo.
Ele faz de tudo, de construir o eletrodo a analisar os dados. Tudo com
muita competência.", completa o neurologista, que também tem um trabalho
em conjunto com Nicolelis em pessoas com Parkinson no Hospital
Sírio-Libanês, em São Paulo.
O projeto consiste na implantação de eletródios no cérebro de pessoas
com Parkinson, que emitem estímulos elétricos sobre os neurônios,
revertendo os sintomas da doença. Os sinais são controlados por um
marcapasso. Está programada a realização de 12 cirurgias deste tipo. A
primeira delas aconteceu em maio.
A notícia do prêmio do NIH foi recebida com alegria em Natal, cidade
onde Nicolelis é diretor científico do Instituto Internacional de
Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS), referência
mundial de pesquisa biomédica, e que mantém projetos como a Escola de
Educação Científica Alfredo J. Monteverde. “O prêmio foi muito bom,
pois, com o dinheiro o Dr. Nicolelis poderá manter os estudos do
laboratório em Duke por dois anos”, disse Dora Montenegro, diretora da
escola científica, que atende crianças do ensino público em Natal.
Foto: © AP
Nicolelis posa com um
dos seus animais de laboratório em 2000: pioneiro no estudo da
interação cérebro-máquina
"Meu negócio é
trabalhar"
Em uma conexão entre Atlanta e San Francisco, o neurocientista conversou
com o iG sobre a repercussão do prêmio, seu trabalho
em Natal e nos Estados Unidos, as possibilidades de um Nobel no futuro e
mostrou que mesmo longe, não perde uma notícia da sua outra paixão, o
Palmeiras. Leia abaixo:
iG: Como o senhor recebeu a notícia do prêmio?
Miguel Nicolelis: Recebi com muita alegria, com muita satisfação. É algo
inédito e muito difícil de conseguir. Todo pesquisador americano é
convidado a se inscrever para esse prêmio, com uma espécie de
dissertação. São alguns milhares de cientistas que se inscrevem mandando
um texto sobre o futuro da ciência na sua área. E depois esse número é
drasticamente reduzido para uns 30, 40 finalistas, e cada um deles dá
uma aula rápida, de 15 a 20 minutos e o comitê dá uma nota e escolhe o
grupo vencedor. É um processo de vários meses, meio torturante. Eu sabia
que a minha nota foi alta, pelo relatório do comitê, mas a gente nunca
sabe o que acontece no final.
iG: O que pretende fazer com a verba?
Nicolelis: Expandir as nossas pesquisas na área da interface cérebro-
máquina. Poderemos testar uma série de idéias e testar uma série de
tecnologias que não poderíamos sem esse prêmio. E poderemos avançar esse
campo de uma maneira bem mais rápida do que eu imaginava há duas
semanas.
Primeiro vamos poder expandir a capacidade de registro da atividade
elétrica do cérebro de algumas centenas de células para algumas dezenas
de milhares. Só isso será um avanço muito grande.
Poderemos construir um espaço virtual para criar avatares de nossos
animais de laboratório, nossos primatas, o que vai permitir que testemos
do ponto de vista técnico e operacional todos os aspectos da veste
robótica que nós estamos desenvolvendo.
E se os testes forem como imaginamos, poderemos avançar para testes
com pacientes bem mais rápido do que eu imaginava antes. Vamos acelerar
todas as etapas. Nosso trabalho com Parkinson, se tudo der certo, em um
ano já conseguimos. O trabalho com as vestes robóticas, levará uns dois
ou três até iniciarmos algum teste clínico.
iG: Como divide seu tempo entre Natal e Estados Unidos?
Nicolelis: Mais ou menos 30% do meu tempo eu passo em Natal. O resto
passo entre Estados Unidos e Europa, nos laboratórios e dando palestras.
Lá trabalhamos também com interface cérebro-máquina. Também colaboro
com o Sidarta Ribeiro, em estudos
da atividade do córtex cerebral e sonhos. Mais um ex-aluno meu,
Rômulo Fuentes, está chegando em Natal para continuar o trabalho com
Parkinson em primatas.
Temos várias linhas de trabalho que estão transformando Natal num
polo muito importante de neurociência no Brasil, que está sendo
conhecido no mundo inteiro. Onde eu vou o pessoal pergunta do instituto
em Natal. É muito bom ter isso.
E neste momento temos 18 crianças da periferia de Natal que fizeram
nosso curso de educação científica e vão passar a ser estagiários do
Instituto de Neurociência, vão fazer iniciação científica. São crianças
que vieram de escolas públicas com problemas seríssimos, passaram três
anos conosco e agora desenvolveram não só o interesse e a paixão como a
capacidade de se tornar cientistas mirins e vão passar a trabalhar nos
laboratórios do instituto. Lá é um celeiro de cientistas.
iG: O senhor é o primeiro brasileiro a ganhar esse prêmio.
Que outras pesquisas brasileiras merecem destaque internacional?
Nicolelis: Vários, em todas as áreas do conhecimento. Os professores
Ruth e Victor Nussenzweig, e seu trabalho em malária em Nova York, que é
espetacular. O professor Luiz Hildebrando Pereira da Silva que era do
Instituto Pasteur e agora está em Rondônia. Tanto dentro quanto fora do
Brasil, existem cientistas brasileiros com um talento enorme, é difícil
de lembrar o nome de todos. A qualidade dos cientistas brasileiros é
muito alta atualmente.
iG: Volta e meia seu nome é citado como um provável prêmio
Nobel. O que o senhor acha disso?
Nicolelis: Ah, eu não tenho a menor idéia. [ri]. Eu não sei de nada.
iG: Mas ouvir isso não é novidade para o senhor, não?
Nicolelis: Ouvir, não. Mas eu não tenho opinião nenhuma. Não sou eu quem
vota, não sou eu quem decide, eu só fico quietinho. Meu negócio é
trabalhar.
Eu gostaria de dedicar esse prêmio da NIH a todos os professores que
tive no Brasil. É uma classe tão sofrida, que trabalha com tantas
dificuldades. Mas desde o primeiro ano da escola primária, até a
universidade e depois da universidade, foram os professores brasileiros
que me ajudaram a perseguir o meu sonho. É a todos eles que eu dedico
esse prêmio.
iG: E o senhor soube da volta do Valdívia ao Palmeiras?
Nicolelis: Ô, essa eu fiquei sabendo na hora. Esse tipo de notícia eu
não perco.
(Colaboraram Maria Fernanda Ziegler, enviada a Natal e Alessandro Greco,
especial para o iG)
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