| A crise econômica e o resgate do ensino |
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| 26-Jul-2010 | ||||||
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Artigo publicado em 26/07/2010 no jornal FOLHA DE S. PAULO
No pós-crise, diminuíram as oportunidades no mercado financeiro e resgatou-se a economia real, que se baseia no crescimento da produção Como educador de uma escola de engenharia, o mercado financeiro causava grande frustração nos anos pré-crise. Naquele período, o mercado financeiro essencialmente monopolizava a contratação de egressos dos cursos de engenharia. Um egresso com essa formação poderia perfeitamente se posicionar nesse mercado, sendo uma evidência de sua versatilidade profissional. Entretanto, me questionava: por que ensinar conteúdos programáticos de um curso de engenharia se o estudante migrava invariavelmente para o mercado financeiro, ignorando grande parte da sua formação técnica? A crise tenha talvez dado a contribuição mais importante para resgatar o ensino universitário e endereçar essa questão. No pós-crise, diminuíram as oportunidades no mercado financeiro, ruindo o deslumbramento dos estudantes com a área. Resgatou-se a economia real, aquela que se baseia no crescimento da produção, inclusive produção intelectual. E, nesse contexto, a universidade desempenha papel central. Nessa nova economia, as melhores oportunidades surgirão nas áreas técnicas, e os estudantes terão de perseguir a compreensão dos conteúdos programáticos para estarem preparados para elas. A raiz da crise talvez tenha sido exatamente o mecanismo de contratação do mercado financeiro. Nas últimas décadas, tornou-se comum contratar físicos, matemáticos e engenheiros, ampliando o horizonte cultural do mercado. Dessa forma, o mercado passou a conviver com profissionais capacitados em entender os fenômenos físicos e construir modelos. Essa cultura passou a ser usada para construir modelos para prever os movimentos das bolsas, os mercados de derivativos e as taxas de juros. Mas ocorreu um descolamento entre teoria e fenomenologia. Embora padrões de evolução dos índices do mercado possam ser previstos com certa precisão, o mercado não é regido pelas leis físicas usuais. A fenomenologia do mercado envolve eventos altamente não lineares, portanto, qualquer modelo simplificado apresenta previsões imprecisas e falha na previsão de eventos catastróficos. Os modelos do mercado se descolaram de um principio básico de qualquer modelo, seus limites de validade. A fenomenologia do mercado está associada à opinião dos investidores, confiança, perspectiva de lucro, eventos de difícil modelagem. Mas os teóricos do mercado falharam na percepção dos limites dos modelos e ignoraram uma lei de qualquer sistema da natureza, a lei do equilíbrio. Se entendessem isso, teriam notado que um crescimento contínuo dos índices das bolsas é fundamentalmente impossível. A crise deixará seu legado por décadas: ela mostrou os riscos de se apostar numa economia virtual, que se baseie em números abstratos, lucros fictícios e dinheiro inexistente. Aos educadores, ficou a percepção de que vale a pena continuar acreditando na sua profissão. JOÃO FRANCISCO JUSTO FILHO, doutor em engenharia pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos EUA), é professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email
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