Educadores europeus divergem sobre idade para começar o ensino formal PDF Imprimir E-mail
28-Dez-2009



Andrei Netto - O ESTADO DE S. PAULO

A idade da alfabetização também é uma questão em aberto entre professores, pedagogos e psicólogos da Europa. Depois de superarem o desafio da universalização do ensino - 99% dos jovens com até 15 anos são alfabetizados em países como a França -, as políticas públicas de educação na União Europeia enfrentam um novo obstáculo: a qualidade do aprendizado.

E uma das propostas é antecipar a leitura e a escrita, hoje ensinada aos 5 ou 6 anos.

A discussão ganhou mais força com o uso de novas mídias por crianças. Jogos educativos, desenhos animados, games, programações de TV, DVDs e internet tornariam crianças mais jovens aptas a aprender a ler e a escrever, defende uma corrente de educadores. E essa demanda viria de suas próprias "necessidades".

Um exemplo: nos países nórdicos, como Suécia, Dinamarca e Noruega, desenhos animados são legendados - e não dublados, como no Brasil. Para decodificá-los, nasce de forma precoce o esforço e o desejo do aprendizado. O resultado prático são crianças de 3 ou 4 anos prontas para serem instruídas.

Um dos defensores dessa tese é André Giordan, educador e pesquisador do Laboratório de Didática e Epistemologia das Ciências da Universidade de Genebra. "Desde muito jovens, a criança sente o desejo de decifrar para ter acesso às informações. Por que não favorecer essa vontade natural, sobretudo em uma época da vida privilegiada, na qual a criança está ávida a tudo saber?"

Sua posição, porém, não é unânime. Uma corrente da pedagogia e da psicologia ainda acredita que, antes dos 6 ou 7 anos, as crianças não são maduras o suficiente, ou seja, não têm a idade mental adequada para tal carga de esforço cognitivo.

"Há algumas bases importantes a se adquirir antes de aprender a ler, em especial um mínimo de vocabulário. Não podemos ler e compreender palavras que não conhecemos. Depois disso, é preciso ter compreendido que a palavra é formada de cada pequeno elemento, os fonemas", pondera Franck Ramus, especialista na aquisição de linguagem e da leitura do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), na França. "A maior parte das crianças está "cognitivamente pronta" por volta dos 5 ou 6 anos, a idade definida na França para começar a leitura. Alguns estão prontos mais cedo, outros mais tarde."

Segundo Ramus, não há estudos que comparem, em número e em qualidade, as diferentes idades de aprendizado. "O risco de antecipar a idade da leitura é que uma proporção maior das crianças não esteja pronta e, logo, acabe fracassando. É uma escolha difícil de fazer."

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