I SEMINÁRIO EVANGÉLICO PELA EDUCAÇÃO – CARTA DE BRASÍLIA PDF Imprimir E-mail
17-Jun-2009

 

1. Nós, evangélicos de diversas igrejas, reunidos no I Seminário Evangélico pela Educação – DF, levantamos a nossa voz em defesa da causa da educação como o caminho para a construção de uma sociedade mais justa e mais solidária no Brasil, tendo como paradigma as palavras registradas no evangelho de Lucas, capítulo 2, versículo 52: “E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens. Por isso, no ideal de uma escola de qualidade igual para todos, unimo-nos ao Movimento Educacionista.na luta por uma revolução humana e pacífica que possa transformar a dura e injusta realidade brasileira.

2. Não podemos ficar calados e omissos diante da realidade de exclusão social, do sucateamento das escolas públicas, da desvalorização do professor, da violência juvenil, da crise ética e familiar, da corrupção que rouba os recursos públicos atingindo as instituições e a sociedade. E nossa voz é também uma voz de denúncia profética das distorções no sistema educacional público do Distrito Federal e o descaso com o meio ambiente, como se pode claramente verificar no processo de privatização do ensino público médio, no abandono de nossos parques, na falta de cumprimento do acordo salarial com os professores, e na falta de vagas na pré-escola. Está escrito: “não havendo profecia, o povo se corrompe” (Provérbios 29:18).

3. O Brasil é um país abençoado por Deus com grande território e com imensas riquezas naturais, mas a sua maior riqueza é o seu povo a quem somos chamados a servir em nome de Jesus Cristo - Marcos 10:42-45. O poder político foi instituído por Deus para a promoção do bem comum - Romanos 13:4. Mas nosso país carece de um projeto de desenvolvimento humano que priorize a educação e o meio ambiente, única saída para os males sociais que nos assolam.

4. Por isso sonhamos com um sistema educacional integrado que invista prioritariamente no ensino fundamental de qualidade e que alcance todas as crianças e garanta o piso salarial mínimo para o professor em todos os Estados brasileiros. Está escrito: “ensina a criança no caminho que deve andar, e, ainda quando for velho não se desviará dele” - Provérbios 22:6.

5. Defendemos uma revolução educacional no Brasil que leve em conta todas as dimensões da pessoa humana: intelectual, física, espiritual e social. O que queremos para nossos filhos e netos é que cresçam como crescia o menino Jesus que, se vivesse hoje, dificilmente teria as condições ideais para seu desenvolvimento como salientou o Professor José Florêncio Rodrigues Jr no sermão de abertura do nosso seminário.

6. Defendemos também a erradicação do analfabetismo resgatando a potencialidade e a dignidade humana de milhões como seres criados à imagem e semelhança da Trindade Santa (Gênesis 1:26 e 27), e uma reforma agrária que fixe o homem no campo e desinche as grandes cidades semeando justiça e paz.

7. Finalmente, a nossa fé e compromisso com Jesus Cristo nos desafia a sermos agentes e não espectadores da história. Por isso devemos lutar em defesa da espiritualidade como valor supremo contra o materialismo e a ganância excludentes reinantes no mundo; contra a pedofilia e exploração sexual de nossas crianças e adolescentes; por uma teologia do corpo que santifique a sexualidade como um dom de Deus; por uma educação pela paz que semeie saúde mental e bons relacionamentos nos lares e nas escolas; e pela defesa da natureza como criação de Deus sem a qual não subsistiríamos. Nossa práxis se basearia em palavras e ações concretas começando por nossas igrejas ampliando sua agenda de oração e reflexão de temas atuais, organizando núcleos educacionistas de debate e ação política capazes de exigir de nossos governantes investimentos na educação. Tal ação nos faria engajar em movimentos libertários e em projetos de humanização que poderão fazer da capital de república do Brasil um modelo para todas as demais unidades da federação. Nosso sonho e missão são trazer os valores do céu para a terra como nos ensinou Jesus na oração do Pai Nosso: “Venha o Teu Reino, e faça-se a Tua vontade, assim na terra como no céu...” - Mateus 6:10.

 


I SEMINÁRIO EVANGÉLICO PELA EDUCAÇÃO – DF – Sermão oficial

Pr. José Florêncio Rodrigues Jr

 

Se Houvesse Vivido Hoje, Jesus Teria Crescido em Estatura, Sabedoria e Graça Diante de Deus e dos Homens?

 

O título dado a esta reflexão—não se trata de sermão—é intencionalmente polêmico. Estou imaginando uma situação bem diferente daquela relatada pelo evangelista Lucas para o adolescente Jesus, filho de José e Maria, vivendo em Nazaré da Galiléia entre a primeira e a segunda décadas da era cristã. Ao contrário do registro do evangelista, proponho que hoje possivelmente o perfil de Jesus seria diferente daquele registrado por Lucas.

É claro, estou especulando. Porém, não no vácuo. Pretendo mostrar que existem elementos para sustentar a proposição, tornando-a, assim, mais do que especulação. Para esse propósito consultei textos produzidos por estudiosos da Bíblia e, particularmente da história e tradições do povo judeu; este foi o primeiro arco da ponte a ser construída. O outro arco da ponte assentei-o sobre dados contemporâneos da educação mundial, assim como registros sobre a sociedade e a educação brasileiras contemporâneas. Utilizei-me de recortes de jornais e revistas, assim como textos veiculados pela internet sobre a educação contemporânea. Portanto, como disse, não apresento uma especulação, mas, sim, uma excogitação.

Podemos tomar como base da nossa excogitação que o crescimento de Jesus em sabedoria, estatura e em graça diante de Deus e diante dos homens se assentasse sobre dois pilares: a família e a sinagoga. Intencionalmente estamos despojando o adolescente Jesus de sua dimensão divina, a qual o tornava necessariamente diferente dos demais adolescentes do seu tempo. A expressão “diante de Deus” utilizada pelo evangelista encerra uma dimensão inescrutável, pois, como Filho de Deus sua consciência de relação com o Pai era única e inacessível aos homens. Por outro lado, realizando essa dissecação, aproximamo-nos do adolescente Jesus, o que nos permitirá, adiante, projetá-lo no nosso tempo.

Família e escola, representada pela sinagoga foram, portanto, os dois pilares ou afluentes da formação de Jesus. De que modo terão contribuído?

Aqui faço uma pausa na recuperação do ambiente doméstico de Jesus. O erudito estudioso da Escritura e dos costumes judeus Alfred Edersheim informa que famílias judias caracterizavam-se pela disciplina e respeito recíproco e essa característica as distinguia de famílias de outras culturas (EDERSHEIM, , 1953, s.d.). Desde os três anos de idade e mesmo antes disso o pai instruía os filhos na observância da Lei, além da observância de datas, festas e memoriais. A obediência ao pai e à mãe era o fundamento da vida doméstica. Às refeições davam-se graças e ao longo do dia memorizava-se a Escritura, particularmente a Tora. Provavelmente a “vara” de que fala o livro de Provérbios seria usada em diferentes ocasiões para reforçar palavras e comandos.

Proximidade, piedade e trabalho seriam características da família de José, Maria e seus filhos, dos quais Jesus era o mais velho, seguido de Tiago, José, Judas e Simão, além de irmãs, cujo número exato ou nomes não são fornecidos pelos evangelistas (ver Marcos 6: 2-3). Maria era a provedora, supervisora e educadora da prole, ao modo como o capítulo 31 de Provérbios descreve.

A família judia praticava o trabalho coletivo, além da atividade do ganha pão. Todos tinham de engajar-se em lavar pratos e panelas, a roupa, a limpeza da casa, preparo do alimento. Jesus era parte desse métier. Além disso, ele tinha funções bem definidas na oficina de José. Ele foi aprendiz, depois profissional, tekton. Mais do que carpinteiro, o tekton (тєктши, no Grego) era um mestre de obras capaz de construir casas e até pequenas pontes. Além disso, como salienta Barcley (1960), o tekton não encontrava a madeira já cortada em pranchas ou vigas; não era só entrar na Madeireira Coima, comprar a peça e trazer para casa. Ele tinha de ir a floresta, encontrar a árvore adequada ao serviço, corta-la e transportá-la para a oficina, onde executaria o trabalho. Aí está o ambiente de trabalho onde Jesus foi criado.

Nesse ambiente, como em casa, o adolescente Jesus aprendeu a norma da obediência. Jesus desde cedo adquiriu a noção do papel da paternidade de Deus em relação à de José. Tanto Maria como José teriam sido absolutamente diretos em fazê-lo ciente da distinção. Sabedor dessa distinção e do lugar acessório de José, o adolescente Jesus poderia ter assumido postura de isenção de deveres e de obediência filiais. Ao contrário disso, registra Lucas a respeito da relação de Jesus com Maria e José: “e era-lhes submisso”.

Agora projeto o outro braço da ponte para a outra margem do rio: a sociedade brasileira contemporânea. O argumento que busco construir, tal como enuncia o título da palestra é que, se fosse hoje, no Brasil, Jesus teria muita dificuldade para crescer em estatura, graça e sabedoria diante de Deus e dos homens. Para facilitar o raciocínio, instalemos Jesus e sua família num apartamento numa casa de classe C no Núcleo Bandeirante. Mas, porque no Núcleo Bandeirante? Gosto daquela cidade, que ainda tem o sentido de vizinhança. É um lugar de gente simples e hospitaleira. Lá vamos instalar José, Maria e os sete filhos.

Para pagar as contas, José e Maria trabalhariam fora. Maria, auxiliar de serviços gerais do Ministério da Agricultura: digitação, xérox, mala direta etc; José, motorista de táxi da empresa Maranata. O orçamento doméstico não permitiria que Jesus e seus irmãos estudassem no Colégio La Salle; estudariam em escola da rede pública. Assim, com seus seis irmãos Jesus iria à escola pública e, findo o expediente escolar, voltariam para casa. Após o almoço, deveres de casa, TV, computador, videogame...ou será que, por ser Filho de Deus ele ficaria fora desse circuito? Outra vez, estamos conjeturando.

Descrevemos anteriormente a família judia do tempo de Jesus como um ambiente caracterizado por disciplina, trabalho, respeito mútuo e piedade. Como seriam as coisas na família de Jesus de hoje? Vejo faltarem alguns desses elementos na constituição de nossas famílias contemporâneas. Disciplina e trabalho estariam sob questão. Nossa sociedade hoje pauta-se pela norma do Estatuto da Criança e do Adolescente e segundo ela o menor deve usufruir da infância, deve ser preservado de constrangimentos e coações de qualquer ordem. Há hoje em tramitação no Congresso projeto de lei que torna os pais culpados judicialmente caso venham a aplicar castigo físico a seu filho. Disciplina e hierarquia domésticas emblemadas no mandamento de honrar pai e mãe tornaram-se assuntos contenciosos. É melhor não mexer e deixar as coisas correrem meio soltas. Nada de forrar a cama ou lavar os pratos. Aprender um ofício? Nem pensar. O máximo que se pode cogitar é dar ter um computador para os filhos entrarem na Internet, em MSN, nos orkuts e bloggers e outros mecanismos de relacionamento...

Dois princípios costumam reger a vida familiar contemporânea: a reversão de responsabilidade e o desperdício. Ensina-se a reversão da responsabilidade quando a criança, correndo dentro de casa bate com a cabeça na quina da mesa. Irrompe em choro com o galo na testa; a mãe, em vez de ensinar-lhe os limites das mobílias e de que quinas de móveis são duras, diz para o pequeno Júnior, de 2 anos: foi essa mesa feia que feriu a testa do Juninho; ato contínuo, dá um tapa na mesa pra não fazer mais isso com o Juninho. Reversão de responsabilidade. Desperdício e esbanjamento: comida jogada fora, desperdício com bens naturais como água, energia e outros. Compare-se esse quadro com o de uma família como a de José, Maria e os sete filhos, nas duas primeiras décadas da era cristã.

Os lares cristãos não ficam em melhor posição. Já presenciei situações em que um filho de mais de trinta anos grita do seu quarto para a mãe:

- Mãe, me trás um sanduíche e um copo de guaraná, por favor.

O moço está deitado no quarto vendo a televisão. A mãe responde-lhe que sim e, ato contínuo, prepara o sanduíche e o leva com o guaraná para o rapaz. Estou falando de lar cristão evangélico.

Poupado do trabalho, Jesus cresceria não em estatura, mas em barriga, deitado no sofá, comendo batata frita e bebendo Coca-Cola em frente da televisão. Sem as linhas mestras da disciplina doméstica, como crescer em sabedoria e graça diante dos homens?

Ora, os senhores e senhoras vão contestar: esse Jesus que você está descrevendo não é o Jesus dos Evangelhos; é uma caricatura d’Ele. De fato, como disse no início, estou desvestindo Jesus da imunidade de Filho de Deus e colocando-o no contexto de uma família brasiliense contemporânea. É como se a Encarnação do Verbo acontecesse hoje, século XXI da era cristã. Porque, se Jesus estivesse a salvo dos riscos de um contexto adverso, como poderia ser perfeito homem?

Que prática de piedade se poderia esperar, Jesus pudesse ter, vivendo num lar brasileiro contemporâneo, mesmo sendo um lar cristão? À luz do que tenho presenciado ou lido, minha mente trava ao conjeturar sobre esse aspecto. Quando é que Maria, com seu trabalho no Ministério da Agricultura e José, dirigindo seu táxi teriam condições para cultivar a Escritura—tanto a sua aprendizagem como a sua prática—no cotidiano do seu lar? A classe de Escola Bíblica Dominical que Jesus freqüenta na sua igreja é bisonha, tediosa. O professor fala sem parar os 50 minutos sem propor nada de desafiador ou estimulante. A Escritura Sagrada torna-se uma peça literária mais remota do que os Lusíadas de Camões. Vêem os senhores e senhoras como estamos diante de uma impossibilidade real, o que tornaria improvável que Jesus, com seus 13 para 14 anos crescesse em estatura, em graça e sabedoria diante de Deus e dos homens.

Lembro de um corinho que aprendi na infância na igreja: “Como é bom saber que Jesus Cristo foi menino assim como eu; que brincava e trabalhava como um jovem galileu.” Esqueça. As palavras do corinho significam nada hoje.

Desenhei o quadro familiar. Passemos ao segundo componente, a escola. Na escola vamos distinguir a instituição, o currículo, o professor e o livro. A instituição escolar na Palestina dos dias de Jesus, assim como em séculos precedentes e nos vindouros foi a sinagoga. Ela era a um só tempo, local de culto, escola paroquial e tribunal de justiça (BACHER, 1947). Crianças com seis anos de idade iam para a sinagoga, onde aprendiam sob a direção do mestre escola, em classes de 25 alunos.

O currículo da sinagoga era o Velho Testamento. O aluno iniciava estudando o livro de Levítico. Conhecimento correlato, como Aritmética, circulava em torno da Escritura; por exemplo, o cálculo do calendário. Lia-se o texto bíblico em voz alta, ele era decorado, além de orações. É desse ambiente—lar e sinagoga—que procedeu o conhecimento da Escritura Sagrada demonstrado pelo Senhor Jesus Cristo como adulto ensinando e argumentando onde necessário, bem assim por Saulo de Tarso.

O professor era o assistente da sinagoga, não o rabi. Esse indivíduo era, a um só tempo honrado e acompanhado em suas ações. Honra ao mestre escola se traduzia no dizer corrente de que se uma calamidade se abatesse sobre uma cidade o mestre escola deveria ser socorrido antes do pai porque este era o doador da vida terrena, enquanto o mestre escola era o doador da vida futura. Por outro lado, o mestre escola precisava ter competência, paciência, saber ensinar e exercer disciplina física na medida justa. Falta nesses três aspectos justificava a dispensa de um mestre escola.

Como enunciado anteriormente, a sinagoga tinha apenas um livro texto: a Escritura Sagrada. Comentários ao texto bíblico eram usados nas classes avançadas, lecionadas pelo rabi. Esta era a escola dos dias do menino e depois adolescente, Jesus.

Porém, transportemos o adolescente Jesus para a Escola Classe 3 do Núcleo Bandeirante, situada na 3ª avenida, na qual se ministra o ensino fundamental. Não conheço essa escola. Entretanto, seu perfil deve harmonizar-se com outras escolas da Secretaria de Educação. Duas ou três classes por série, com diferentes professores por disciplina a partir da 5ª série. É provável existirem mais alunos na turma do que os 25 da sinagoga.

Diferentemente do que acontecia com o mestre escola da sinagoga, o(a) professor(a) da Escola Classe 3 do Núcleo Bandeirante ganha pouco se comparado a outras profissões. Em contrapartida, a maioria dos professores em salas de aula mostra-se incompetente quer em exames a que se submetem, quer quando observados em sala de aula. A indisciplina tornou-se o diapasão na sala de aula. Estabeleceu-se um círculo vicioso no qual o(a) professor(a) falta com o respeito ao aluno e este devolve-lhe o desrespeito na segunda ou terceira potência. Agrava-se a situação quando professores paralisam as aulas para reivindicar melhoria salarial. Os alunos, deixados em casa, regridem irremediavelmente na aprendizagem.

Ao contrário do Brasil, Cingapura é hoje um dos países com educação mais avançada no mundo. Entretanto, na década de 60 era um dos países mais atrasados em educação; transportou-se para o topo, em pé de igualdade com países europeus e da América do Norte. Como? Selecionando os melhores alunos no ensino médio para serem professores, pagando salários compensadores e treinando-os intensamente. Professores que não correspondem a esse padrão são dispensados. Para crescer em sabedoria diante dos homens Jesus necessitaria professores cingapurianos.

Livros didáticos, desde os dias da sinagoga são importantes na aprendizagem. Estudo publicado em 1987 pelo Banco Mundial e realizado em países em desenvolvimento evidenciou que em 24 estudos 16 creditavam a aprendizagem dos alunos ao livro didático em países como Egito, México, Brasil, entre outros. É preciso, além disso, que o livro didático seja bom. Livro didático ensinando que o Paraguai fica no Brasil não facilita a aprendizagem do aluno. Jesus, certamente não cresceria em sabedoria diante dos homens estudando num livro desses. Na Escola Classe 3 Jesus correria o risco de ter em suas mãos um livro didático fazendo apologia da homossexualidade. Ora, a homossexualidade é uma opção de vida que deve ser respeitada naqueles que a escolhem. Tenho pessoas no meu relacionamento que são homossexuais; respeito-as e defendo seu direito de sê-lo. Porém, discordo que o homossexualismo deva ser disseminado como estilo de vida em livro didático de uso corrente.

Teria Jesus crescido em estatura, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens se tivesse vivido nas circunstâncias descritas? Deus em sua sabedoria infinita fê-lO vir ao mundo naquele tempo e lugar. “Na plenitude dos tempos,” como disse o apóstolo Paulo. Tivesse Jesus vindo ao mundo hoje, possivelmente teríamos a Encarnação; dificilmente a Redenção.

Referências

 

BACHER, W. Synagogue. In HASTINGS, James, A dicitonary of the Bible. Edinburgh: T & T Clark, 1947.

BARCLAY, William. The mind of Jesus. London: SCM Press, 1960.

EDERSHEIM, Alfred. Sketches of Jewish social life in the days of Christ. Grand Rapids, Michigan, Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1953

EDERSHEIM, Alfred. Jesus the Messiah. New York: Longmans, Green & Co., [s.d.]

FULLER, Bruce. What school factors raise achievement in the Third World? Review of Educational Research, 1987, v. 57, n.3, pp.255-292.

PEREIRA, Camila. Ensinar é para os melhores. Veja, 3 de junho 2009, pp.102-103.

 

Pastor José Florêncio Rodrigues Júnior,

Brasília, 5 de junho, 2009


I SEMINÁRIO EVANGÉLICO PELA EDUCAÇÃO - DF

 

PRECISAMOS DE BOITATÁS E DE CURUPIRAS!

João Pedro Gonçalves

 

Dos diversos contos e lendas do nosso folclore, o Boitatá e Curupira estão entre os mais famosos. As origens das mesmas se perdem pela antiguidade. Historicamente, José de Anchieta (1560) fez o primeiro registro delas: "Há também outros fantasmas, que vivem a maior parte do tempo junto do mar e dos rios, e são chamados baetatá, que quer dizer cousa de fogo, o que é o mesmo como se se dissesse o que é todo de fogo. Não se vê outra cousa senão um facho cintilante correndo para ali; acomete rapidamente os índios e mata-os; o que seja isto, ainda não se sabe com certeza"1. O boitatá é um gênio protetor dos campos: mata quem os destrói pelo fogo ou pelo medo. Aparece sob a forma de enorme serpente de fogo, fogo-fátuo, ou santelmo, do qual emana fosfato de hidrogênio pela decomposição de substâncias animais2.

Etimologicamente3, o “termo seria a junção das palavras tupis mboi e tatá, significando cobra e fogo, respectivamente – ou ainda de mboi – a coisa ou o agente. Segundo Gonçalves Ribeiro4, o boitatá era uma cobra que vivia na escuridão e chamava-se Boiguaçu. Um dia, por causa de uma enchente, teve que sair da caverna onde morava e foi juntar-se aos outros animais. Por viver sempre no escuro, era o único animal que conseguia ver os outros. Quando a fome apertou, boiguaçu começou comer os animais; mas comia apenas as partes que mais gostava: os olhos. Com o tempo, sua pele começou a ficar luminosa, por causa dos muitos olhos que havia comido. Por causa desse brilho, lhe deram o nome de boitatá. Ao morrer, sua luz esparramou-se pelos brejos e cemitérios. Parece que, por castigo, o boitatá ficou encarregado de zelar pelas campinas.

Dependendo da região ou Estado, o termo recebe diversos nomes: boitatá, baitatá (Sul do Brasil), biatatá (Bahia), Bitatá (São Paulo) e Batatão (Nordeste do Brasil). No Norte e Nordeste, o “boitatá protege as matas e florestas das pessoas que provocam queimadas”; no Sul, seu surgimento remonta-se ao “dilúvio”. Após o dilúvio, muitos animais morreram e as cobras ficaram rindo felizes, pois havia alimento em abundância. Para alguns, a lenda “está associada aos incêndios, que ocorrem espontaneamente em função da queima de gases oriundos da decomposição de material orgânico”5.

O Curupira é uma entidade que habita as matas e é descrito como um anão de cabelos compridos e vermelhos. A característica principal do curupira são os seus pés, que são virados para trás. Sua principal função é proteger as florestas e os animais e punir os agressores - caçadores que desrespeitam as leis da natureza, não respeitam o período de procriação e amamentação dos animais bem como caçam além do que precisam para a sua sobrevivência. Os madeireiros que derrubam as árvores visando os lucros também se tornam vítimas do curupira6.

Diz-se que, com a aproximação de uma tempestade, o Curupira corre a floresta batendo nos troncos das árvores. Com isso, examina a resistência dos troncos se os mesmos podem agüentar a ventania. A idéia é avisar os bichos para que não se aproximem. Como punição àqueles que tratam mal os animais e as árvores, o curupira encanta as pessoas fazendo com que andem em volta sem sair do lugar7.

As lendas e mitos normalmente são originárias de histórias contadas a partir do interior; não tem comprovação científica. No entanto, é certo que relatam verdades que tentam explicar lições e dilemas da vida. O próprio fato de se conhecer variações das lendas já apontam para significados diferentes. Assim, a variação da lenda significa usos interpretativos de espaços e conteúdos diferentes. Conhece-se, assim, diversas interpretações de Histórias da Carochinha e da teogonia grega. Alguns autores afirmam que essas histórias, mitos, lendas e sagas existem somente no contexto em que carregam um significado moral, uma lição que desperta algum sentido para a vida dos leitores e ouvintes. Voltaremos a isso mais tarde.

Não resta dúvidas que as duas lendas tratadas aqui apontam para alguns detalhes interessantes. Primeiramente, são contadas a partir de animais fantásticos que ganham vida e vontade próprias contra o homem. Este, vem sempre de fora. Em segundo lugar, o homem, que é visto como o pedrador, explorador do interior, o estrangeiro, o estranho, aquele que vem de fora para matar e destruir.

Por outro lado, as lendas, já quase atingindo cinco séculos de existência, deixam entrever o cuidado com a casa (ὀικος – oikos) onde se vivia, sendo essa casa conhecida como a natureza. A oikos, precisava de um uso racional, lógico, sábio (λογος – logos), daí, a ecologia. Literalmente, a ecologia aponta para a racionalidade no uso da casa ( ὀικος – oikos(casa) + λογος – logos(racional). Então, quando os portugueses aqui chegaram, as preocupações com a ecologia, o uso racional da terra, o cuidado com a “grande casa” que vivemos, já era uma realidade, uma preocupação, uma prioridade para aqueles que aqui estavam.

Até hoje, o índio é considerado o guardião dessa casa, ao passo que o homem branco, o colonizador e seus descendentes, são os exploradores. Aqueles que não respeitam os ciclos naturais dos animais e que desmatam a floresta sem qualquer recato.

Meio milênio depois, o homem vindo de fora não se guia mais pelas crendices dos índios e do homem do interior. O homem moderno age sob critérios da racionalidade, e não através das crenças dos chamados homens primitivos. Ele age racionalmente. Suas ações são justificadas cientificamente. Ele aprendeu a dominar a natureza e retirar dela tudo o que ela pode lhe dar.

As ciências modernas do homem moderno são caracterizadas pela previsibilidade, testabilidade e a matematização. O homem aprendeu a dominar a natureza, prever suas reações, predizer acontecimentos, modificar seu curso e aproveitar sua força para benefício próprio. Diferentemente do homem primitivo, que temia e respeitava a natureza. Era necessário obedecê-la. Caso contrário, sofreria as conseqüências do seu desrespeito, do seu mau uso. O homem moderno é pragmático, usa o que dá certo. Estuda para domesticar, modifica para aproveitar, conhece para dominar.

No entanto, conhecendo-se (ou sofrendo) os recentes fenômenos da natureza que nos atingem diretamente: seca excessiva, chuva excessiva, calor excessivo (em 2008 Brasília apresentou temperaturas 4 graus acima da média desde que se começou a medição do tempo na capital); derretimento das geleiras, furacões em maior quantidade e mais ferozes a cada temporada, chega-se a pensar que existiria um “curupira” ou um “boitatá” por trás de tudo isso, comandando a revolta da própria natureza a ponto de deixar os homens – brancos e índios, protetores e pedradores - sem rumo, sem resposta, e, principalmente, sem controle da situação.

Numa sociedade dessacralizada, desacredita-se da presença e efeito de boitatás e curupiras. Mas não se pode negar, efetivamente, a punição que esse homem moderno sofre da natureza como retaliação. Claro, a defesa racional do homem moderno existe: trata-se do efeito newtoniano (Terceira lei) de ação e reação. É o aquecimento global, ouvimos como explicação, fruto da destruição contínua da camada de ozônio.

O mais interessante de se viver nesse mundo desencantado, dessacralizado, é que o homem sabe o que está acontecendo, mas vive como em estado de encantamento. Deslumbrado com a perspectiva de progresso contínuo, a questão da responsabilidade ambiental, o cuidado com a “grande casa” e o seu uso racional (oikos + logos = ecologia), ainda não é levado a sério como deveria ser.

De acordo com a lenda, era possível enganar o curupira. Bastava fazer um novelo com um cipó, cuidando de esconder as pontas e jogar para longe e gritar: “Quero ver você desenrolar o novelo!”. Assim, o curupira ficaria procurando a ponta e nesse movimento, se entreteria, esquecendo de continuar a enganar e encantar o homem. Dessa forma, o homem encantado deveria aproveitar a distração do curupira e fugir.

O homem moderno sabe o que está acontecendo – está encantado, está sofrendo os efeitos de reação do mau uso da natureza -, no entanto, não tem sido sábio o suficiente para sair da encruzilhada em que se encontra. Ao contrário, como se encantado ainda estivesse, continua degradando a natureza em velocidade muito maior do que cuida dela.


 


 

1http://pt.wikipedia/wiki/Boitata. Apud. José de Anchieta in: ... Fragmentos Históricos, etc., Rio de Janeiro, 1933

3http://pt.wikipedia.org/wiki/Boitata. Acessado em 26.11.2008

4Gonçalves Ribeiro (s.d). Histórias e lendas do Brasil. São Paulo: APEL Editora. Acessado na internet em 26.11.2008

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