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08-Mai-2009

O FRACASSO ESCOLAR

 

Neiff Satte Alam

 

Assumindo o fracasso

 

O fracasso escolar não tem uma única causa, mas um conjunto de fatores que concorrem para que tal situação ocorra. Tão importante quanto resolver este problema é a conscientização de que é uma situação real, atual e que desestrutura toda e qualquer política pública que tenha conexão com o sistema educacional.

As evidências deste fracasso estão amplamente divulgadas quando observamos o dramático quadro de uma juventude que se entrega às drogas, de crianças dormindo ao relento e esmolando pelas esquinas, de superlotações de presídios, de violência familiar e dentro das escolas e de tantas outras situações de pura ação antissocial que preenchem os espaços dos jornais, rádios e televisões ou acontecem nas calçadas e ruas por onde passamos ao obedecer nossas rotinas de ir e vir pela cidade.

É evidente que não se pode atribuir ao caos em que se encontra a sociedade nas suas relações com a Escola aos profissionais que atuam dentro destas instituições, mas, sim, a toda uma estrutura educacional “desalicerçada”de políticas públicas de estado alinhadas aos interesses e necessidades da Escola.

È natural que dentro da Escola, com todas as adversidades que envolvem esta instituição, as coisas não ocorram como deveriam e isto tem que ser também objeto de análise e reflexão.

 

Professores no limite

 

Vamos iniciar pelo isolamento a que está submetido o professor dentro de sua sala de aula. Isolamento determinado pela carência de profissionais especialistas em educação, como é o caso, por exemplo, dos Orientadores Educacionais, que se constituiriam, então, em elementos de conexão entre os componentes da estrutura escolar e entre estes e as famílias dos estudantes. Um quadro melhor descrito das realidades de cada estudante permitiria aos professores trabalhar com mais eficiência as diferenças entre os alunos e alcançar melhores resultados, tanto no plano de ensino-aprendizagem como na complementação de uma educação que inicia na casa do estudante e se reforça na escola. O que se observa é uma utilização em caráter precário (desvio de função) de professores com outras habilitações, mas que estão precariamente utilizados, desempenhando a função de Orientador Educacional e Supervisor Escolar. É natural que seus desempenhos não sejam de boa qualidade, mesmo que haja esforço e boa vontade, pois não são preparados para estas funções.

Pode-se perceber, então, que há uma deficiência estrutural da/na Escola o que deixa o professor no front dos conflitos sociais do entorno da instituição escolar e transportados para dentro desta instituição. Aumentado o volume de responsabilidades e reduzido o seu poder de atendê-las, o professor termina por adoecer, como é ocaso da Síndrome de Burnout, que é o resultado de uma exaustão emocional provocada por estresse profissional. O termo Burnout é uma composição de burn=queima e out=exterior, sugerindo assim que a pessoa com esse tipo de estresse consome-se física e emocionalmente, passando a apresentar um comportamento agressivo e irritadiço. A autoconfiança, o humor e a concentração atingem índices de redução extremamente comprometedores e fazem com que o Professor pareça irresponsável e desinteressado por seu trabalho, mas na verdade está acometido de uma doença provocada por fatores externos e que não podem ser controlados por ele, pois a causa está em uma estrutura/conjuntura educacional, social e econômica, tendo que se submeter a atendimentos físicos e mentais, mas apenas nos limites de sua disponibilidade financeira.

 

E as políticas públicas para Educação?

 

Senhores governantes, se não fizer parte das prioridades de seus governos o cuidado com a Educação, se não valorizarem os profissionais em Educação, se entregarem a Educação a iniciativa privada tirando a oportunidade da maioria da população de terem acesso a Escolas Públicas de qualidade, estarão aprofundando as diferenças entre os pobres e os ricos, mais do que isto, estarão eliminando a maior parte da classe média, deixando o país a mercê de interesses estranhos e de pura conveniência econômica.

Quando a liderança dos movimentos dos educadores for efetivamente do grupo, quando todos estiverem efetivamente unidos por ideais nobres de construção de políticas públicas para a educação, políticas sérias, sem sectarismos, sem ideologização partidária, sem disputa de poder interno da categoria que mais a fragmenta do que soma esforços em razão do bem comum, então teremos resultados positivos e poderemos dobrar a resistência dos conservadores, retrógrados, neoliberais tupiniquins que não colaboram em nada com o país, mas anulam nossa maior riqueza: o nosso conhecimento.

Quando aprenderão Presidente, Ministros de Estado, Governadores, Secretários de Educação e outros tantos dirigentes, que, detendo o conhecimento, viabilizando seu crescimento, teremos as armas do desenvolvimento ao nosso lado. Não é por outro motivo que os países que nos controlam economicamente são avessos a políticas educacionais que nos coloquem em condições de competitividade igual e, lamentavelmente, em nome da governabilidade, da contenção de despesas, vamos desconstruindo os caminhos que nos conduziriam à liberdade e democracia sem adjetivos restritivos!

As políticas públicas para educação, além do esforço dos governantes, deverá contar com a efetiva participação da sociedade, pois o conjunto lar/escola terá que ser ouvido e atendido em suas demandas.

Será no conjunto lar/escola que se viabilizará um processo educacional que dê ao homem as condições mínimas de participar desta fatia de pessoas que tenham capacidade de gerar e utilizar eticamente as idéias, fruto de seu aprendizado somado ao potencial genético recebido por hereditariedade, mas que será diferente em quantidade e qualidade, pois é importante a diversidade das idéias para que haja diversidade de seu uso como conquista de riqueza e da exploração desta.

Pelo exposto, é fácil entender a importância de uma política educacional que possibilite um aprendizado que não seja castrador da imaginação e da criatividade inerentes a qualquer criança. É fácil se concluir que, se houver interesse real do Estado em dar à sua população uma educação de qualidade, deverá rever todo o trabalho pedagógico das escolas; o tratamento dado ao professor/educador; as condições em que se dá o ensino, isto é, a infra-estrutura das escolas.

Disciplina à beira do caos

Os alunos estão sem limites em sala de aula, em outros setores da Escola e principalmente em casa. As lições de liberdade, democracia e ética se perdem pelos descaminhos da falta de limites.

A escola termina por ser o desaguadouro de todos os conflitos sociais. Neste local se encontram todos os problemas não resolvidos em casa e na rua, acumulam-se frustrações de desejos não atendidos pelos pais e exigidos pelos filhos que muitas vezes, em momentos anteriores, tiveram suas vontades satisfeitas mesmo diante de dificuldades extremas experimentadas pelos pais. Segundo alguns psicólogos, esta falta de limites leva a um enorme problema de indisciplina, acentuado desrespeito e, não poucas vezes, ao uso de drogas como forma de fuga de uma realidade que não está ao seu alcance.

Alunos agridem professores ao mais leve sinal de discordância em relação as atitudes destes. Agridem-se uns aos outros, os recreios tornaram-se locais de enorme conflito ao ponto de algumas escolas suprimirem os recreios para evitarem atos de violência nos pátios e corredores.

Os professores, neste quadro de violência, também se tornam mais agressivos como compensação às agressões sofridas.

O Pedagogo Fernando José de Almeida, em artigo da Revista Nova Escola, Edição 221, assim se manifesta:

... Durante minha trajetória, vi muitas coisas belas, mas outras nem tanto - como a violência, que transborda em muitas escolas. Esse fenômeno - e seus modos de enfrentamento - é o tema deste primeiro artigo. Sei que nas escolas são comuns paredes riscadas, muros pichados, chicletes colados sob o tampo das carteiras e vidros quebrados, além de agressões verbais - com apelidos maldosos - e físicas entre a garotada na hora do recreio e da saída. Fatos desse tipo estão presentes em unidades de ensino de qualquer rede ou país: Brasil, França, Estados Unidos, Finlândia... Os níveis são diferentes - vão da ofensa sutil e fina como um bisturi à aniquilação escancarada como uma bomba.”

O ciberespaço que poderia ser nosso auxiliar nestas questões disciplinares, termina por ser um inimigo, pois, sem ser utilizado de forma adequada pela escola ou simplesmente não utilizado, passa a ser um centro desorganizado de informações onde os sítios de relacionamento se prestam, na maioria das vezes, para transmitir comportamentos inadequados, provocações entre pessoas e/ou grupos, deixando de cumprir o importante papel globalização do conhecimento em um mundo sem fronteiras, mas encaminhado para conflitos que levam a ações de indisciplina ou de puro vandalismo.

Enfrentando o problema

Corrigir esta trajetória é possível desde que, assumido o fracasso, busquemos o fortalecimento dos educadores e o apoio dos educacionistas. Os educadores terão que ser mais do que simples trabalhadores em educação no sentido que se quer dar, isto é, educador não é um simples operário, pois tem a tarefa de viabilizar a construção de conhecimentos e competência para que crianças, jovens e adultos visualizem uma possibilidade de futuro promissor, onde liberdade, democracia e oportunidade de uma vida saudável e digna sejam metas reais e atingíveis.

O centro das políticas públicas tem que ser o homem e devem nascer dos desejos e anseios da sociedade e desenvolvidas pelos governantes, que para isto são escolhidos pelo voto popular. Se educação e saúde estiverem nesta frente de ações, todas as demais necessidades da população serão naturalmente atendidas, principalmente as demandas econômicas que deverão ser acessórios e não carro chefe destas políticas, para que o bem estar social, priorizado, viabilize desenvolvimento e não apenas crescimento.

Internamente, nas escolas, será necessária uma gestão diferente da que atualmente ocorre. Profissionais certos e qualificados no lugar certo: professores protegidos para realizarem seu trabalho como educadores; os conflitos dos alunos no ambiente extra escola equacionados e atendidos por profissionais de fora da escola, como psicólogos, assistentes sociais e outros e os que ocorrem no ambiente escolar, independentemente da sua origem, atendidos pelos Orientadores Educacionais, Pedagogos, Psicopedagogos que, embora existentes, não são utilizados. Os professores deverão ter a disponibilidade de uma educação continuada para que possam acompanhar os avanços pedagógicos e tirar proveito destes avanços para qualificarem os resultados em sala de aula.

É urgente que haja qualificação dos Cursos de Formação de Professores, pois, com exceção de algumas Universidades, há uma proliferação de Cursos que acentuam o aprendizado de conteúdos e abrem mão de uma formação no sentido de uma prática reflexiva.

 

Pergunta Perrenoud: “por que formar professores para que possam refletir sobre sua prática?”. Como resposta, coloca uma série de motivos: “Como motivos, podemos esperar que uma prática reflexiva: compense a superficialidade da formação profissional; favoreça a acumulação de saberes de experiência; propicie uma evolução rumo à profissionalização; prepare para assumir uma responsabilidade política e ética; permita enfrentar a crescente complexidade das tarefas; ajude a vivenciar um ofício impossível; ofereça os meios necessários para trabalhar sobre si mesmo; estimule a enfrentar a irredutível alteridade do aprendiz; aumente a cooperação entre colegas; aumente a capacidade de inovação. (Perrenoud,P.A Prática Reflexiva no Ofício do Professor – Profissionalização e Razão Pedagógica.Artmed. 2002,p.48.)

 

Os egressos destes Cursos têm que aprender com a experiência que vão adquirindo no exercício da profissão, é o mesmo que consertar a turbina de um avião em pleno voo.

Para que todos os remédios sejam eficientes e que a saúde da educação dê mostras de franca recuperação, faz-se necessária uma ação integrada entre Educadores e Educacionistas, como propõe o Senador Cristovam Buarque, unindo todos os interessados em uma ação política clara e responsável, mesmo que tenhamos que modificar o lema da bandeira para EDUCAÇÃO É PROGRESSO, no lugar de ORDEM E PROGRESSO!

 

Texto publicado do DIÁRIO DA MANHÃ/PELOTAS no dia 03 de maio de 2009

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