Eustáquio e Raulene, educacionistas PDF Imprimir E-mail
29-Abr-2009

Foi em agosto do ano passado que Eustáquio Alves ligou o motor do seu Fiat Uno, sentou sua mulher, Raulene Lobo, no banco do passageiro, e rodou 1,5 mil quilômetros até Brasília, disposto a mudar não a sua vida, mas a de seus filhos e netos, de modo que eles não tivessem de passar as mesmas dificuldades que ele para estudar. Eustáquio vira num site da internet que seria realizado em Taguatinga o primeiro Seminário do Movimento Educacionista.

Interessou-se pela doutrina criada pelo senador Cristovam Buarque, o Educacionismo, que prega uma revolução política a partir da educação, da garantia de escola pública de qualidade para todos, independentemente de raça, escolaridade ou poder aquisitivo. Após a palestra, Eustáquio resolveu que faria de Glória de Dourados, o pequeno município de apenas 9 mil habitantes no Mato Grosso do Sul, um núcleo do Educacionismo. No dia 25 de abril, sábado, Eustáquio conseguiu. Com a presença do próprio Cristovam, realizou-se em Glória de Dourados o primeiro seminário educacionista do Mato Grosso do Sul. E, sob a liderança de Eustáquio, formou-se o núcleo educacionista sul-matogrossense.


“Se o sonho de Cristovam virar realidade, haverá uma escola pública de qualidade aqui em Glória de Dourados. Eu quero fazer todo o possível para que isso aconteça, porque não quero que ninguém tenha que passar o que eu passei para conseguir estudar”, diz Eustáquio. E o que Eustáquio, hoje com 29 anos, passou não foi nada fácil. Filho de um agricultor, Eustáquio nasceu, ajudado por uma parteira, na beira de um rio ao lado da fazenda de seu pai. Fez o ensino fundamental numa escola rural. Aos 13 anos, não havia mais como continuar estudando em Glória de Dourados. Eustáquio juntou, então, sua mala e a coragem e partiu para São Paulo. Empregou-se como auxiliar de pedreiro em construções civis para poder fazer, na grande Paulicéa, o segundo grau. Trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. No terceiro ano do Ensino Médio, o governo de São Paulo concedia ao primeiro aluno da turma uma bolsa para magistério. Eustáquio ganhou-a.


Ao mesmo tempo, porém, a curiosidade arrastou-o para o frio do Rio Grande do Sul. Levado pela curiosidade, Eustáquio resolveu tentar o vestibular para Engenharia Agrícola na Universidade de Pelotas. Passou. E optou pela aventura. Ignorou a bolsa do governo de São Paulo e foi para o Sul. Eustáquio não levou em conta as dificuldades que teria para viver e estudar tão longe assim de sua casa. Sem dinheiro, não conseguiu terminar a faculdade. Três anos depois, voltou para o Mato Grosso do Sul.
De volta á sua cidade, fez vestibular para uma universidade particular, a Unigram. Tentaria agora o curso de Matemática. Passou, mas logo faltou dinheiro para pagar a faculdade. A lembrança boa desse período é que foi na Unigram que ele conheceu Raulene, que cursava Veterinária. Passado um tempo, Eustáquio tentou novo vestibular, para Agronomia. Passou de novo. De novo, faltou dinheiro para pagar a faculdade. Eustáquio ainda faria mais tarde uma nova tentativa de curso superior, de Psicologia. Mas o dinheiro sempre faltava.


Foi quando uma grande empresa montou uma usina de álcool em Glória de Dourados que Eustáquio desistiu do curso superior. Fez um curso técnico de mecânico no Senai e foi trabalhar na usina. Foi lá que descobriu o Educacionismo. E, a partir do Educacionismo, a vida de Eustáquio tomará novo rumo.


Depois que viu o anúncio na internet, Eustáquio ligou, de um orelhão, para o gabinete de apoio do senador Cristovam em Taguatinga e obteve informações do seminário. Passou dois dias fazendo pesquisas e reuniões preparatórias antes de pegar seu carro e rumar para o Distrito Federal. “Fui muito bem recebido em Taguatinga. Eles não esperavam ninguém de fora de Brasília. Viram chegar um cara do Mato Grosso do Sul”, recorda-se Eustáquio. Depois de participar de um encontro em Sorocaba, no ano passado, ele resolveu que a próxima reunião seria na cidade. Encarou o desafio e conseguiu. Na palestra de Cristovam, no sábado, 25 de abril, 250 pessoas ouviam o senador. Foi um acontecimento em Glória de Dourados, uma cidade tão pequena que não costuma ser rota sequer de boa parte das campanhas políticas dos candidatos locais a deputado.


Eustáquio, porém, nada teria conseguido sem o apoio de Raulene. A veterinária é a porção de tranquilidade na determinação de Eustáquio. Filha de uma família de classe média de Glória de Dourados – o pai, fiscal de renda, a mãe, funcionária pública do município –, ela teve uma infância de menos dificuldade que seu marido. Mas, da mesma forma, engajou-se de cabeça no movimento educacionista. “A educação é tudo. É ela que move a sociedade”, entende Raulene. “Nós estamos crescendo junto com o movimento”, diz ela. Eustáquio e Raulene são educacionistas. Junte-se a eles.

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