Democracia e gestão universitária (artigo) PDF Imprimir E-mail
26-Jun-2012


WELLINGTON ALMEIDA
Cientista político, é professor da UnB. Foi decano de extensão e chefe de gabinete da Reitoria

Correio Braziliense: 25/06/2012 04:00

A Universidade de Brasília começa a debater a escolha de novo reitor. O processo sucessório foi antecipado após o lançamento de manifesto e entrevista à imprensa (Correio Braziliense, 15/5/12) por parte de um grupo político, que pretende lançar como candidato o professor Ivan Camargo. Trata-se de uma corrente interna de opinião, expressiva do ponto de vista acadêmico e institucional. Sem dúvida, um posicionamento relevante, merecedor de todo respeito.

 Questão que aparece com relevo na posição dessa corrente é o tema da gestão universitária. Grosso modo, podemos afirmar que o posicionamento lançado procura imputar à atual administração incapacidade para a gestão. É fato que a gestão do cotidiano precisa melhorar muito na UnB. A forte expansão vivenciada nos últimos anos aumentou os desafios para quem se propõe liderar uma comunidade viva, inovadora, carente de recursos humanos e sem autonomia plena.

 Uma questão-chave, porém, não pode ser negligenciada: o melhor modelo de participação da comunidade no processo decisório. Pressuposto elementar para encaminhar qualquer proposta de gestão, especialmente em instituições e sociedades complexas, é a legitimidade, que precisa ser renovada constantemente. É imperativo reunir condições políticas para continuar governando, pois as crises virão naturalmente. Clinton e Lula, por exemplo, com governos bem-avaliados, tiveram a legitimidade questionada em algum momento e escaparam por pouco do impeachment.

Na UnB, não temos como ignorar esse processo. Ainda buscamos uma saída para a crise que em 2008 derrubou o então reitor Timothy Mulholland, tido por seus apoiadores como injustiçado. Pode ser que ele seja e sou contra a demonização do ex-reitor, que merece paz para se defender. Mas é fato que sua gestão perdeu a legitimidade, entrou em colapso e ele caiu. Caiu por quê? 
A resposta não é simples, mas há claras evidências da influência negativa do modelo de sua escolha, que estava ancorado em processo de voto direto com peso hierárquico entre os segmentos da universidade, com uma fórmula que praticamente eliminou a representação estudantil. Além disso, ocorreu um esvaziamento dos órgãos colegiados no processo decisório. Os exemplos desse modo de tomar decisões são inúmeros. Para ficar apenas em dois, basta lembrar como eram definidas as locações de vagas para professores e a destinação de verbas para obras no câmpus.

A atual administração optou por outro caminho. Para ficar nesses dois exemplos, eliminou o mercado de vagas e definiu todas as obras em discussão aberta no Conselho de Administração. Prédios novos ou construções paralisadas foram ou estão sendo concluídas, sem fazer uso de outros ativos que formam o patrimônio da universidade. A gestão que caminha para finalizar seu mandato — e que teve como objetivo maior a pacificação da comunidade — enfrentou oposição ostensiva. Agiu com tranquilidade e não tinha direito de reclamar. É parte do processo.

A boa notícia é que uma maioria expressiva do órgão máximo da universidade compreendeu e referendou a continuidade do modelo mais democrático de consulta. O Conselho Universitário manteve o atual modelo por ampla maioria (58x23 votos). Por motivos históricos e particularidades específicas do processo recente de construção democrática no país — que merecem outro debate — a escolha do gestor máximo das universidades públicas federais é feito por votação direta, com diferentes modelos, mas com clara tendência de consolidação do voto paritário. 
Muitos questionam esse caminho, afirmando que ele se presta a posturas populistas ou corporativistas. O argumento não pode ser desprezado a priori e merece ser discutido. Devemos estar abertos a alternativas que proponham repensar a universidade e seus mecanismos de representação e transparência. Mas, enquanto o modelo for de eleição direta, não há mais viabilidade em sistema hierarquizado entre os três segmentos. Por isso, a maioria (37 em 54) das universidades já saiu do sistema. A hierarquia do modelo que está morrendo é versão atualizada das restrições censitárias, educacionais e de gênero vigentes nos primeiros sistemas eleitorais. Não há teoria democrática contemporânea que o sustente.

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