|
O Secretário de Formação da CNTE, Gilmar
Soares Ferreira, foi um dos expositores do seminário sobre formação de
professores "Formação docente e seus reflexos na Educação Básica",
realizado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) no dia 28 de maio, em
Brasília. Em sua participação, Gilmar destacou os desafios para a
qualificação dos trabalhadores da educação no país. Como exemplo, citou
que existem cerca de 600 mil docentes sem habilitação compatível para as
disciplinas que lecionam nas escolas de nível básico.
Veja, abaixo, a íntegra da participação do Secretário de Formação da CNTE
Quero, inicialmente, saudar a todos/as
os/as participantes deste evento e desejar que nossa participação neste
seminário seja condição para a assunção, no âmbito dos entes federados,
de iniciativas que de fato possibilitem o aprimoramento dos processos de
formação inicial e continuada dos profissionais da educação (repito,
profissionais da educação), ao mesmo tempo em que as reflexões aqui
realizadas reflitam que a ação em torno das políticas de formação devam
sempre vir acompanhadas de outras ações de valorização profissional, sob
o risco de vermos todos os esforços e investimentos se esvaírem, sem
alcançar o resultado a que se propuseram.
Quero saudar as coordenadoras da Mesa,
Conselheiras Clélia e Nilma e em nome delas saudar todas/os os/as
integrantes do Conselho Nacional de Educação (CNE).
Quero saudar ainda as representações das
entidades integrantes desta mesa: Professor Teatini, da Capes/MEC,
Professoria Íria, da Anfope e Professora Eliza, da Anped.
Senhoras, Senhores aqui presentes:
Em matéria de diagnóstico e produção de
teorias e projetos sobre e para a formação inicial e continuada dos
profissionais do magistério, este país não tem do que reclamar. Muito
temos feito. Não faltam, também, organizações que se utilizam
regularmente dos institutos de pesquisa para poder ocupar espaços na
mídia, (espaço relativamente facilitado para algumas ONGs), para falar
do óbvio sobre o porquê não conseguimos resolver problemas de
aprendizagem dos nossos alunos em nossas escolas em geral. Falo de
escolas em geral porque, resguardadas aos estudantes as condições de
acesso a meios, como a cultura, o esporte e o lazer, algo que faça
diferença na vida de um estudante, tanto na escola pública quanto na
escola privada, nos deparamos com os problemas de aprendizagem.
O mais difícil nesta leitura de
realidade é que todos/as sabemos qual o caminho a seguir. Sabemos o que
fazer, ao menos, sabemos quais os caminhos principais que devemos
trilhar. Mas, parafraseando Anísio Teixeira, continuamos nos esvaindo em
teorias, discursos e palavras. Nesse sentido, as ações que vêm sendo
realizadas, sem tratar a questão como um todo, perdem-se ao longo do
caminho, sem que surjam os resultados esperados.
Cabe-nos aqui afirmar, de imediato, que
todas as ações de políticas públicas em torno da formação inicial e
continuada podem resultar em iniciativas sem grandes reflexos num
sistema de educação inscrito em nossa mente e formado a partir de
legislações frágeis, confusas, inseguras, que, no caso dos entes
federados, não deixa claro o que cada um tem a fazer, e, quando deixa ,
não define punições para quando os gestores não cumprem com o seu papel.
É que formação inicial e continuada faz
parte de um movimento aliado às condições de carreira, jornada e
salário, formando um corolário que garante a tão propalada valorização
profissional. Assim está escrito no artigo 206 da nossa Carta Magna.
Só para exemplificar, citarei aqui o
caso do Estado de Pernambuco: torna-se difícil imaginar que haverá
motivação por parte do profissional da educação ou, sendo mais
específico, por parte da professora ou do professor, em frequentar
atividades de formação continuada para conquistar uma nova habilitação,
quando, no seu plano de carreira, a diferença salarial do nível
médio-magistério para o Ensino Superior é de apenas 5%.
E o que pensar das ações dos gestores
que, para fugir do cumprimento da Lei do Piso, pela quarta vez
reafirmada como constitucional pelos Ministros/as do Supremo Tribunal
Federal (STF), vem destruindo as carreiras conquistadas pelos
educadores?
O que pensar de gestores estaduais e
municipais que aplicam o reajuste do piso somente para o nível médio da
carreira, congelando os índices referentes aos demais níveis de
formação, alegando e justificando, assim, estarem pagando o piso?
O que pensar de gestores e legisladores
nos estados e municípios que, por vezes, em sessões pouco divulgadas,
promovem mudança dos planos de carreira, quebrando condições
fundamentais, inclusive, para a frequência aos cursos de formação
continuada?
A formação profissional precisa ser
pensada de forma orgânica pelos sujeitos envolvidos no processo
educacional. É urgente que isso aconteça, sob pena de continuarmos com
os vícios do sistema que está "inscrito" em nós. Para exemplificar, cito
uma conversa que tive com uma mãe de aluno que frequenta o primeiro ano
do Ensino Fundamental (EF). A mãe me relatava as dificuldades que seu
filho estava vivenciando nas primeiras semanas do ano letivo em curso.
Ele, um menino totalmente integrado à escola no período da
pré-alfabetização, naquelas primeiras semanas de aula, era o último a
sair da sala, por não conseguir acompanhar os coleguinhas nas
atividades. A mãe preocupada pôs-se a buscar saber o que estava
acontecendo. Fora o choque de ver o menino agora frequentar uma sala de
aula com 27 alunos (com 4 e 5 anos havia frequentado uma sala de aula
com, no máximo, 15 alunos e nessa condição tinha uma relação mais
afetuosa com a professora), a mãe descobriu ter a professora dupla
jornada, verificou que, por vezes, chegava atrasada à escola e que tinha
que sair imediatamente, ao fim da jornada, porque também estudava: a
mesma frequentava um curso de especialização.
O importante aqui, a partir desse
relato, é perceber a existência de situações que, se não forem
globalmente trabalhadas, tornarão inócuos os esforços de formação.
Do ponto de vista da Formação dos
Profissionais da Educação, temos grandes desafios. Estudo divulgado em
dezembro de 2011 pelo CNE revelou que faltam 300 mil professores nas
redes públicas de ensino do País. Somam-se a esse número os cerca de 600
mil docentes sem habilitação compatível para as disciplinas que
lecionam nas escolas de nível básico (MEC, Inep, 2009).
No caso dos funcionários da educação,
desde 2005, o MEC desenvolve programa de profissionalização, em parceria
com estados e municípios, mas a meta de profissionalizar 100 mil
trabalhadores, até 2011, apenas chegou próximo da metade. A recorrente
falta de materiais didáticos e o baixo incentivo dos sistemas de ensino –
do ponto de vista das condições para a frequência dos/as
funcionários/as aos cursos e do reconhecimento da qualificação
profissional na carreira – comprometem a expansão do Profuncionário e
inibem a implantação de cursos tecnológicos para esses profissionais.
A falta de educadores nas escolas ocorre
principalmente em razão dos baixos salários, da ausência de planos de
carreira e das precárias condições de trabalho, em grande parte das
redes públicas de ensino. Registre-se que os cursos de licenciatura são
os que apresentam o maior número de vagas ociosas nas universidades
(especialmente nos grandes centros urbanos) e que seus formandos quase
sempre optam por carreiras mais bem remuneradas e com maior destaque
social – o que prova a importância das políticas sistêmicas para a
valorização profissional (formação, salário/piso, carreira, jornada,
condições de trabalho).
O Plano Nacional de Formação de
Profissionais do Magistério da Educação Básica, lançado em 2009 pelo
Decreto no 6.755, tem por objetivo mapear as carências de profissionais e
articular o atendimento às demandas formativas em parcerias entre os
fóruns estaduais de apoio à formação docente, as universidades públicas e
os governos de estados e municípios. Contudo, a não institucionalização
da medida (Decreto não é Lei!) e as "rixas" políticas locais, estaduais
e nacionais (ou mesmo a falta de compromisso com a educação) dificultam
o comprometimento de todos os gestores com essa política de extrema
importância para a qualidade da educação. Por óbvio, não basta
identificar as carências e propor políticas. A principal queixa dos/as
professores/as e funcionários/as em atividade nas redes de ensino – sem
habilitação apropriada para o cargo/função – concentra-se nos
impedimentos impostos pelos sistemas educacionais para frequentarem os
cursos de formação. O acesso às instituições públicas e gratuitas é
outro entrave em algumas localidades do País, sobretudo nas zonas rurais
e nas microrregiões que não contam com instituições de ensino superior.
Embora se admita a profissionalização
dos funcionários em cursos de nível médio a distância, a exemplo do
Profuncionário, no caso da formação inicial em nível superior (tanto
para professores como para funcionários) a prática do ensino a distância
não é recomendável, em razão da complexidade que envolve não apenas os
conteúdos teóricos mas a didática de ensino e as relações
intersubjetivas inerentes à convivência no ambiente escolar. Os
princípios da gestão democrática, do pluralismo de ideias e das
concepções pedagógicas voltadas para a humanização exigem a socialização
de experiências de forma direta e permanente entre os sujeitos da
formação. Sobre o aspecto curricular da formação, é premente a
necessidade de as universidades socializarem conhecimentos com quem está
no "chão da escola". O objetivo da interação (escola-universidade) deve
se concentrar na instrumentalização dos profissionais, à luz das
demandas sociais e pedagógicas da escola, evitando os modelos de
competências que não dialogam com a educação crítica e de conteúdos
inovadores, além de fortalecer as concepções de projeto político
pedagógico e de gestão democrática.
Tão importante quanto a formação inicial
é a instituição de uma política pública voltada à formação continuada
dos trabalhadores em educação – ausente no Brasil. Além de focar a
qualificação profissional (individual e coletiva), essa política também
deve se preocupar em manter a escola atrativa aos estudantes e a seus
familiares, os quais devem ser convidados, cada vez mais, a participarem
do projeto pedagógico e da gestão da escola.
Sobre esses desafios, torna-se urgente a
definição de um Plano Nacional de Educação, com metas firmes e
arrojadas e com recursos garantidos para os diversos entes federados e
as respectivas ações.
Na verdade, não suplantaremos os quadros
de disparidades na escola pública, sem maiores recursos, daí a nossa
luta pelos 10% do PIB para a Educação Pública.
Sobre as metas 15 e 16 do Plano Nacional
de Educação (PNE) e suas estratégias, a Confederação Nacional dos
Trabalhadores em Educação (CNTE) reivindica a institucionalização das
políticas de formação inicial e continuada para os trabalhadores da
educação, a oferta pública e gratuita de cursos para todas as áreas da
formação docente e dos funcionários da educação, a prioridade ao caráter
presencial quando da formação inicial, a instituição de política
pública para a formação continuada em âmbito da plataforma Freire e a
implantação dos fóruns de apoio à formação docente em todos os estados –
e fóruns correlatos ou unificados visando contemplar os funcionários da
educação.
Repetimos: ou a nação se prepara para
adotar medidas mais concretas (como políticas de Estado) para enfrentar
os problemas da baixa aprendizagem em nossas escolas ou, então, veremos
recrudescer o número dos analfabetos funcionais em nossa sociedade.
Nesse contexto, não será nenhuma novidade recrudescerem também os casos
de violência "da" e "na" escola. Como o caso daquele menino do 1.º ano
do EF a vivenciar dificuldades de enturmação, em função do número de
alunos em sala, e a vivenciar dificuldades de aprendizagem; situação
sobre a qual precisamos perceber como suas dificuldades mantêm estreita
relação com a condição desse profissional não poder se dedicar
plenamente àquela turma ou acompanhá-la de forma adequada (leiam-se aqui
as dificuldades: o salário baixo, que leva à dupla jornada e a busca de
formação continuada fora de um contexto de projeto pedagógico e muitas
vezes apenas para melhorar a questão salarial). Como nesse caso, não
lograremos êxito, se as políticas de formação inicial e continuada não
se fizerem acompanhar de outras ações capazes de revolucionar a vida dos
profissionais da educação, neste caso específico, dos/as professores/as
que necessariamente precisam de outras condições de formação, carreira,
jornada e salário para se dedicarem plenamente à profissão.
Não é por acaso que, neste final de
fala, a formação vem em primeiro lugar e o salário aparece em último.
Nisso está o reconhecimento desses profissionais, que reclamam por
formação mais do que salário e que, mesmo sob condições desumanas, todo
início de ano letivo, se enchem de forças e energias e trabalham com um
sentimento comum: vontade de realizar algo e a certeza de que podem e
que vão conseguir dar algo de si para a educação e para ajudar os
alunos: PROFISSIONAIS QUE AGEM ASSIM, MERECEM MAIS RESPEITO PELA NAÇÃO!
"Seminário sobre Formação de Professores" - Conselho Nacional de Educação
Brasília, 28 de maio de 2012.
|