Cristovam Buarque quer universidade misturada ao resto do mundo PDF Imprimir E-mail
17-Abr-2012
Na semana que antece o aniversário da UnB, senador inaugura série de entrevistas com ex-reitores

 

 


Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email - Da Secretaria de Comunicação da UnB


Primeiro reitor eleito democraticamente pela Universidade de Brasília, em 1985, o professor Cristovam Buarque buscou construir uma universidade tridimensional, preocupada diretamente com temas relacionados à atualidade. “O que eu defendo e formulei desde 1985 é que, além da organização por área, nós precisamos ter uma categoria por núcleos, por temas de preocupação com a realidade”, afirma o hoje senador pelo PDT. Em 2012, ano de seu Jubileu, Cristovam quer ver a UnB vencer o conservadorismo acadêmico e se aproximar mais dos ex-alunos. Nos últimos dez anos, formaram-se aqui 38 mil profissionais. “Ex-aluno traz vida, recursos, críticas e apoio para a universidade”.

Na entrevista que abre a série de conversas com ex-reitores da UnB, Cristovam contou à UnB Agência que vê as universidades em um caminho sem volta em relação aos novos métodos de aprendizagem com o uso de computadores e até mesmo da química. “Talvez, no futuro, em vez de você ir para uma biblioteca, você vai para a farmácia e compra uma pílula para aprender equação de segundo grau”, especula. Mas, para o senador, o principal desafio da UnB para os próximos 50 anos está no campo ético. “O mundo caminha para a universidade servir ao primeiro mundo internacional dos ricos, esquecendo a Gulag social dos pobres. Então, é preciso humanizar a universidade, que significa servir à humanidade.”

Confira a entrevista completa abaixo:

UnB Agência: Qual é o balanço das principais conquistas da UnB ao longo de seus cinquenta anos?
Cristovam:
A primeira conquista foi ter sobrevivido ao regime militar, porque a intenção aparentemente era de fecharem a universidade, que não seria a primeira no mundo. Mas a UnB, os militares, por alguma razão, decidiram mantê-la, ocupando-a. A segunda é ter crescido como tem crescido nesse tempo todo. A terceira é a capacidade da UnB de se adaptar aos novos métodos de ensino, como por exemplo o ensino a distância. Já uma grande conquista foi a reestruturação proposta a partir de 1985, que a gente chamou de universidade tridimensional. Embora ela não tenha ficado totalmente tridimensional, porque um dos lados não foi levado adiante e morreu, mas pelo menos ficamos com dois lados, que são o dos departamentos e dos núcleos temáticos. Eu recomendo que vejam o meu livro “A Aventura da Universidade” e o meu texto, “Uma Ideia de Universidade”. Há também artigos publicados na Revista Humanidades da época.

UnB Agência: Como funciona a ideia da universidade tridimensional:
Cristovam:
Hoje, as universidades por aí são por departamentos: Matemática, Engenharia, Biologia, Economia... O que eu defendo e formulei desde 1985 é que, além dessa organização por área, nós precisamos ter uma categoria por núcleos, por temas de preocupação com a realidade. Afinal, a realidade não cabe em nenhum departamento. A Faculdade de Medicina, por exemplo, não estuda saúde, estuda Medicina como categoria científica. Precisamos de um Núcleo da Saúde, que vai ter matemático, vai ter biólogo, engenheiro, médico, nutricionista, ambientalista... Assim também um Núcleo da Fome ou da Energia, pois energia não cabe em nenhum departamento da Engenharia. Você tem que ter Energia, aí sim vai ter matemático, economista, tudo. Só que, em um lado, dá compromisso, do outro gera saber, e precisamos de um lado que dê humanismo. A intenção é que cada pessoa da universidade seja um cubo. Tem que acabar com essa história do homem unidimensional - exemplo, só ser médico. O homem precisa ser tridimensional, ele tem que ter uma área do conhecimento no qual se especializa, uma ou mais áreas de temas de preocupação com a realidade, que ele trabalha junto com os outros, e precisa ter um campo que ele use para sua realização emocional. Essa visão tridimensional foi uma conquista da universidade, apesar desse último núcleo ter sido relegado, e acho até que não funcione organizadamente. Vai demorar que essa conquista vire um pensamento hegemônico, aceito por todos.

UnB Agência: Como a UnB pode chegar nessa linha mais humanista e de forma mais organizada?
Cristovam:
Ligada ao mundo, por meio da extensão e por empresas também. Extensão não é só colocar para cuidar de pessoas doentes, não. Por empresas também e organizações sociais. É isso que a gente precisa: uma universidade tridimensional, vinculada com a realidade e com o mundo inteiro.

UnB Agência: Como o senhor avalia essa mudança de perspectiva na UnB?
Cristovam:
Acho que essa mudança está acontecendo, inclusive por coisas que eu criei, o Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) e o Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), onde ainda dou aula. Essa transformação está ocorrendo, mas muito devagar, porque a comunidade acadêmica é conservadora. Não existe nada mais reacionário que professor universitário, salvo professor universitário de esquerda, que é mais reacionário que os outros. [risadas]

UnB Agência: Para quebrar esse conservadorismo e aumentar o diálogo com a sociedade, o que é necessário?
Cristovam:
Na minha opinião, o melhor caminho para isso é o ex-aluno. A UnB precisa agir um pouco mais para envolver os ex-alunos em suas atividades. A associação de ex-alunos é pouco considerada e ex-aluno traz vida, recursos, traz crítica, traz apoio para a universidade. No começo da UnB não adiantava porque eram poucos, mas hoje o número de ex-alunos é razoável.

UnB Agência: Mas há outros caminhos para manter viva a memória da universidade junto à opinião pública?
Cristovam:
Depois do ex-aluno tem a extensão, a realização de seminários externos, e os núcleos temáticos. Os núcleos não devem ser constituídos apenas de professores e alunos, deve trazer gente de fora. Eu dirigi, quando fui reitor, o Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo. Lá, a gente fazia reuniões com professores de diferentes departamentos, políticos, padres, diplomatas, todos iam lá na segunda-feira à noite e a gente debatia. Foi nesse espaço que nasceu a ideia do Bolsa-Escola, por volta de 1986 e 1987. É uma maneira de misturar a universidade acadêmica com o resto do mundo.

UnB Agência: Nesse diálogo com o mundo, como sua experiência frente à Reitoria o influenciou ao longo de sua trajetória pública?
Cristovam:
Essa experiência foi decisiva, pois a partir da reitoria da universidade eu adquiri uma certa notoriedade, ainda pequena, que me permitiu começar o ano eleitoral (1994) com 2% nas pesquisas de opinião. Se eu não tivesse sido reitor, não teria nem essa porcentagem. Então me deu uma boa visibilidade. Se eu não tivesse sido reitor, acho que nem teriam me procurado para ser candidato. O fato é que me procuraram.

UnB Agência: Sua história com a UnB começou em 1979 e segue até hoje. Essa vivência o ajudou a ter a colocar em prática a ideia do cubo e do homem tridimensional?
Cristovam:
Claro, a universidade foi que me permitiu refletir mais, porque era em tempo integral. Hoje aqui [no Senado] eu não tenho direito de refletir. A dinâmica é muito exigente. Se você for olhar a maior parte dos livros que escrevi foi como professor quando era de tempo integral. Depois disso, foram mais coleções de artigos, que eu consigo escrever no carro, por exemplo. Eu escrevo, almoçando, jantando, já livro eu escrevi quase todos no tempo quando era professor. 

UnB Agência: Ao olharmos para o futuro, o modelo de universidade pública vai mudar?
Cristovam:
A universidade precisa ser pública. Hoje em dia ela não é. Ela é estatal. Estatal não é sinônimo de público. Estatal é aquilo que pertence ao Estado. Público é aquilo que serve ao público. A universidade estatal precisa se publicizar. E a universidade particular também precisa ser uma instituição de serviço público. Ela tem que formar para a sociedade, mesmo que o aluno tenha que pagar.

UnB Agência: E os desafios futuros da UnB?
Cristovam:
O primeiro desafio é ser pública, ter compromisso com a nação, com o público, com a população, e não apenas com os alunos, não apenas com os professores. Hoje, a universidade basicamente é isso, uma escada de ascensão social para o aluno que entra. Não é um instrumento de melhoria da sociedade pra todos, mesmo que dando uma escada social. O propósito deve ser servir a todos. Outro desafio é se adaptar à internacionalização. No futuro vai ter uma só universidade no mundo. E o endereço vai ser eletrônico, vai ter muita gente diplomada que não saberá onde fica a instituição que lhe deu o diploma... sem saber o país, e nem o continente.

UnB Agência: O senhor se refere a rede de relações, principalmente pela internet?
Cristovam:
Não tenho dúvida, essa relação vai dominar e não adianta reagirmos a essa mudança. Então, o desafio é a internacionalização do ponto de vista entre as nações. Outro desafio ainda é o uso de novos métodos de aprendizagem: televisão, computadores, softwares e, dentro de mais alguns anos, a química. Talvez a gente vai tomar uma pílula para aprender mais rapidamente, um dia para aprender tudo. Em vez de você ir para uma biblioteca, você vai para a farmácia e compra uma pílula para aprender equação de segundo grau.

UnB Agência: Mas toda essa transformação nos próximos 50 anos?
Cristovam:
Aí não, é uma especulação de ficção-científica. Agora, em 50 anos não há dúvida nenhuma que a sala de aula vai ser outra, que o professor vai ser uma profissão diferente da qual é hoje. O professor do quadro, do powerpoint vai sumir. O professor vai ser uma combinação com o computador, vai trabalhar junto ali na forma de passar a aula, e na forma do aluno ter acesso à aula em casa. Por fim, há também o desafio ético. O mundo caminha para  a universidade servir ao primeiro mundo internacional dos ricos, esquecendo a Gulag social dos pobres. Então, é preciso humanizar a universidade, que significa servir à humanidade. Não apenas ao país, mas à humanidade inteira. Não apenas o presente, mas também a longo prazo. Exemplo, os cursos de engenharia continuam resistindo a ter aulas de meio ambiente. Continuam achando que meio ambiente é questão dos outros e que o que fazem são motosserras, os outros que defendam as árvores. Vão ter que mudar. Vai ter que ter dentro do ensino da engenharia a ética de não destruir a natureza, como os físicos já tem. Você não vê físico querendo fazer bomba atômica, como vê engenheiro mecânico querendo inventar motosserra. Vai ter que se colocar mais ética dentro da universidade, vai ter que se dar um propósito à profissão.

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