Primeiro
reitor eleito democraticamente pela Universidade de Brasília, em 1985, o
professor Cristovam Buarque buscou construir uma universidade
tridimensional, preocupada diretamente com temas relacionados à
atualidade. “O que eu defendo e formulei desde 1985 é que, além da
organização por área, nós precisamos ter uma categoria por núcleos, por
temas de preocupação com a realidade”, afirma o hoje senador pelo PDT.
Em 2012, ano de seu Jubileu, Cristovam quer ver a UnB vencer o
conservadorismo acadêmico e se aproximar mais dos ex-alunos. Nos últimos
dez anos, formaram-se aqui 38 mil profissionais. “Ex-aluno traz vida,
recursos, críticas e apoio para a universidade”.
Na
entrevista que abre a série de conversas com ex-reitores da UnB,
Cristovam contou à UnB Agência que vê as universidades em um caminho sem
volta em relação aos novos métodos de aprendizagem com o uso de
computadores e até mesmo da química. “Talvez, no futuro, em vez de você
ir para uma biblioteca, você vai para a farmácia e compra uma pílula
para aprender equação de segundo grau”, especula. Mas, para o senador, o
principal desafio da UnB para os próximos 50 anos está no campo ético.
“O mundo caminha para a universidade servir ao primeiro mundo
internacional dos ricos, esquecendo a Gulag social dos pobres. Então, é
preciso humanizar a universidade, que significa servir à humanidade.”
Confira a entrevista completa abaixo:
UnB Agência: Qual é o balanço das principais conquistas da UnB ao longo de seus cinquenta anos?
Cristovam:
A primeira conquista foi ter sobrevivido ao regime militar, porque a
intenção aparentemente era de fecharem a universidade, que não seria a
primeira no mundo. Mas a UnB, os militares, por alguma razão, decidiram
mantê-la, ocupando-a. A segunda é ter crescido como tem crescido nesse
tempo todo. A terceira é a capacidade da UnB de se adaptar aos novos
métodos de ensino, como por exemplo o ensino a distância. Já uma grande
conquista foi a reestruturação proposta a partir de 1985, que a gente
chamou de universidade tridimensional. Embora ela não tenha ficado
totalmente tridimensional, porque um dos lados não foi levado adiante e
morreu, mas pelo menos ficamos com dois lados, que são o dos
departamentos e dos núcleos temáticos. Eu recomendo que vejam o meu
livro “A Aventura da Universidade” e o meu texto, “Uma Ideia de
Universidade”. Há também artigos publicados na Revista Humanidades da
época.
UnB Agência: Como funciona a ideia da universidade tridimensional:
Cristovam:
Hoje, as universidades por aí são por departamentos: Matemática,
Engenharia, Biologia, Economia... O que eu defendo e formulei desde 1985
é que, além dessa organização por área, nós precisamos ter uma
categoria por núcleos, por temas de preocupação com a realidade. Afinal,
a realidade não cabe em nenhum departamento. A Faculdade de Medicina,
por exemplo, não estuda saúde, estuda Medicina como categoria
científica. Precisamos de um Núcleo da Saúde, que vai ter matemático,
vai ter biólogo, engenheiro, médico, nutricionista, ambientalista...
Assim também um Núcleo da Fome ou da Energia, pois energia não cabe em
nenhum departamento da Engenharia. Você tem que ter Energia, aí sim vai
ter matemático, economista, tudo. Só que, em um lado, dá compromisso, do
outro gera saber, e precisamos de um lado que dê humanismo. A intenção é
que cada pessoa da universidade seja um cubo. Tem que acabar com essa
história do homem unidimensional - exemplo, só ser médico. O homem
precisa ser tridimensional, ele tem que ter uma área do conhecimento no
qual se especializa, uma ou mais áreas de temas de preocupação com a
realidade, que ele trabalha junto com os outros, e precisa ter um campo
que ele use para sua realização emocional. Essa visão tridimensional foi
uma conquista da universidade, apesar desse último núcleo ter sido
relegado, e acho até que não funcione organizadamente. Vai demorar que
essa conquista vire um pensamento hegemônico, aceito por todos.
UnB Agência: Como a UnB pode chegar nessa linha mais humanista e de forma mais organizada?
Cristovam:
Ligada ao mundo, por meio da extensão e por empresas também. Extensão
não é só colocar para cuidar de pessoas doentes, não. Por empresas
também e organizações sociais. É isso que a gente precisa: uma
universidade tridimensional, vinculada com a realidade e com o mundo
inteiro.
UnB Agência: Como o senhor avalia essa mudança de perspectiva na UnB?
Cristovam:
Acho que essa mudança está acontecendo, inclusive por coisas que eu
criei, o Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDT) e o Centro de
Desenvolvimento Sustentável (CDS), onde ainda dou aula. Essa
transformação está ocorrendo, mas muito devagar, porque a comunidade
acadêmica é conservadora. Não existe nada mais reacionário que professor
universitário, salvo professor universitário de esquerda, que é mais
reacionário que os outros. [risadas]
UnB Agência: Para quebrar esse conservadorismo e aumentar o diálogo com a sociedade, o que é necessário?
Cristovam:
Na minha opinião, o melhor caminho para isso é o ex-aluno. A UnB
precisa agir um pouco mais para envolver os ex-alunos em suas
atividades. A associação de ex-alunos é pouco considerada e ex-aluno
traz vida, recursos, traz crítica, traz apoio para a universidade. No
começo da UnB não adiantava porque eram poucos, mas hoje o número de
ex-alunos é razoável.
UnB Agência: Mas há outros caminhos para manter viva a memória da universidade junto à opinião pública?
Cristovam:
Depois do ex-aluno tem a extensão, a realização de seminários externos,
e os núcleos temáticos. Os núcleos não devem ser constituídos apenas de
professores e alunos, deve trazer gente de fora. Eu dirigi, quando fui
reitor, o Núcleo de Estudos do Brasil Contemporâneo. Lá, a gente fazia
reuniões com professores de diferentes departamentos, políticos, padres,
diplomatas, todos iam lá na segunda-feira à noite e a gente debatia.
Foi nesse espaço que nasceu a ideia do Bolsa-Escola, por volta de 1986 e
1987. É uma maneira de misturar a universidade acadêmica com o resto do
mundo.
UnB Agência: Nesse diálogo com o mundo, como sua experiência frente à Reitoria o influenciou ao longo de sua trajetória pública?
Cristovam:
Essa experiência foi decisiva, pois a partir da reitoria da
universidade eu adquiri uma certa notoriedade, ainda pequena, que me
permitiu começar o ano eleitoral (1994) com 2% nas pesquisas de opinião.
Se eu não tivesse sido reitor, não teria nem essa porcentagem. Então me
deu uma boa visibilidade. Se eu não tivesse sido reitor, acho que nem
teriam me procurado para ser candidato. O fato é que me procuraram.
UnB
Agência: Sua história com a UnB começou em 1979 e segue até hoje. Essa
vivência o ajudou a ter a colocar em prática a ideia do cubo e do homem
tridimensional?
Cristovam: Claro, a universidade foi que me
permitiu refletir mais, porque era em tempo integral. Hoje aqui [no
Senado] eu não tenho direito de refletir. A dinâmica é muito exigente.
Se você for olhar a maior parte dos livros que escrevi foi como
professor quando era de tempo integral. Depois disso, foram mais
coleções de artigos, que eu consigo escrever no carro, por exemplo. Eu
escrevo, almoçando, jantando, já livro eu escrevi quase todos no tempo
quando era professor.
UnB Agência: Ao olharmos para o futuro, o modelo de universidade pública vai mudar?
Cristovam:
A universidade precisa ser pública. Hoje em dia ela não é. Ela é
estatal. Estatal não é sinônimo de público. Estatal é aquilo que
pertence ao Estado. Público é aquilo que serve ao público. A
universidade estatal precisa se publicizar. E a universidade particular
também precisa ser uma instituição de serviço público. Ela tem que
formar para a sociedade, mesmo que o aluno tenha que pagar.
UnB Agência: E os desafios futuros da UnB?
Cristovam:
O primeiro desafio é ser pública, ter compromisso com a nação, com o
público, com a população, e não apenas com os alunos, não apenas com os
professores. Hoje, a universidade basicamente é isso, uma escada de
ascensão social para o aluno que entra. Não é um instrumento de melhoria
da sociedade pra todos, mesmo que dando uma escada social. O propósito
deve ser servir a todos. Outro desafio é se adaptar à
internacionalização. No futuro vai ter uma só universidade no mundo. E o
endereço vai ser eletrônico, vai ter muita gente diplomada que não
saberá onde fica a instituição que lhe deu o diploma... sem saber o
país, e nem o continente.
UnB Agência: O senhor se refere a rede de relações, principalmente pela internet?
Cristovam:
Não tenho dúvida, essa relação vai dominar e não adianta reagirmos a
essa mudança. Então, o desafio é a internacionalização do ponto de vista
entre as nações. Outro desafio ainda é o uso de novos métodos de
aprendizagem: televisão, computadores, softwares e, dentro de mais
alguns anos, a química. Talvez a gente vai tomar uma pílula para
aprender mais rapidamente, um dia para aprender tudo. Em vez de você ir
para uma biblioteca, você vai para a farmácia e compra uma pílula para
aprender equação de segundo grau.
UnB Agência: Mas toda essa transformação nos próximos 50 anos?
Cristovam:
Aí não, é uma especulação de ficção-científica. Agora, em 50 anos não
há dúvida nenhuma que a sala de aula vai ser outra, que o professor vai
ser uma profissão diferente da qual é hoje. O professor do quadro, do
powerpoint vai sumir. O professor vai ser uma combinação com o
computador, vai trabalhar junto ali na forma de passar a aula, e na
forma do aluno ter acesso à aula em casa. Por fim, há também o desafio
ético. O mundo caminha para a universidade servir ao primeiro mundo
internacional dos ricos, esquecendo a Gulag social dos pobres. Então, é
preciso humanizar a universidade, que significa servir à humanidade. Não
apenas ao país, mas à humanidade inteira. Não apenas o presente, mas
também a longo prazo. Exemplo, os cursos de engenharia continuam
resistindo a ter aulas de meio ambiente. Continuam achando que meio
ambiente é questão dos outros e que o que fazem são motosserras, os
outros que defendam as árvores. Vão ter que mudar. Vai ter que ter
dentro do ensino da engenharia a ética de não destruir a natureza, como
os físicos já tem. Você não vê físico querendo fazer bomba atômica, como
vê engenheiro mecânico querendo inventar motosserra. Vai ter que se
colocar mais ética dentro da universidade, vai ter que se dar um
propósito à profissão.
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