Marjorie Ribeiro - Portal Aprendiz
Fundação Nokia de Ensino destaca-se no estado com bons resultados do Enem e baixa taxa de evasão.
Todos os dias, Marenice Melo de Carvalho acorda às 4h30, toma banho,
coloca o uniforme, despede-se da mãe e pega o ônibus que sai do bairro
Redenção e segue até a região do distrito industrial, em Manaus (AM). Às
7h, chega à Fundação Nokia de Ensino (FNE), onde toma café da manhã com
os colegas e, em seguida, entra na sala para assistir à primeira aula
do dia.
A adolescente de 15 anos foi uma das 5 mil pessoas que se inscreveram
no concorrido processo seletivo da instituição, que destina 70% das 160
vagas oferecidas anualmente para quem veio de escolas públicas. Ela,
que estudou a vida inteira em colégio estadual, cursa hoje o 1º ano do
Ensino Médio, com Técnico em Eletricidade.
Assim como 55% dos estudantes, Marenice não paga mensalidade, recebe
uniforme e empréstimo de material escolar. A diretora pedagógica, Ana
Rita Arruda, explica que as famílias com renda inferior a três salários
mínimos são isentas. “Os outros pagam proporcional ao que recebem e o
preço varia de R$ 180 a R$ 620”, complementa.
A instituição oferece três alimentações diárias: café da manhã, almoço e lanche da tarde.
Realidade educacional do Amazonas
De acordo com os últimos levantamentos do Ministério da Educação
(MEC), o Amazonas, mesmo registrando melhorias na qualidade da educação,
permanece com péssimos indicadores educacionais. Além do baixo
desempenho no Índice de Educação Básica (Ideb) – média de 3,3 (numa
escala de 0 a 10) e 16ª posição no ranking nacional, em 2009 – há ainda
uma alta taxa de evasão no Ensino Médio – 65,6%, segundo os últimos
dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
“O Amazonas é o que apresenta piores resultados, principalmente, por
conta da falta de políticas públicas e da dificuldade de acesso causada
pelas grandes distâncias. Demoram dias para levar um material escolar da
capital para o interior de barco e todo esse transporte é muito caro”,
opina Ana Rita.
Diante dessa precariedade, os nativos encontram dificuldades para
ingressar no Ensino Superior público, que não raramente tem suas
cadeiras ocupadas por alunos de outros estados. Em 2011, das 50 vagas
oferecidas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para o curso de
Medicina da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), para ingresso em
2012, apenas duas foram preenchidas por amazonenses.
Fundação Nokia de Ensino
Estudantes optam por escola de Ensino Médio Integral para passar no vestibular.
Dentre as escolas que tiveram os melhores indicadores nas avaliações
do MEC, a Fundação Nokia de Ensino é uma das que se destaca. Levando em
conta os resultados do Enem 2010, foi classificada como a 8ª melhor
escola técnica do Brasil e a 3ª melhor instituição de ensino do
Amazonas. De acordo com Ana Rita Arruda, o índice de evasão da FNE é
nulo e mais de 97% dos alunos entram numa universidade pública.
Além do Ensino Médio Profissionalizante em tempo integral, a FNE
oferece cursos extracurriculares de espanhol e de pré-vestibular,
alimentação, atendimento médico e odontológico. A matriz curricular da
instituição mescla as disciplinas obrigatórias do Ensino Médio com as
das áreas técnicas em Elétrica, Mecatrônica, Informática ou
Telecomunicações.
Marenice confessa que quando escolheu se inscrever na prova
especializada para Elétrica, mal sabia do que se tratava. “Foi um chute
no escuro”, afirma. “Mas estou gostando bastante”, complementa. Já
Rodrigo Silva de Melo, de 17 anos, apesar de cursar o 3º ano com
técnico em Informática, quer prestar vestibular para Medicina.
“Na verdade, eu entrei aqui em busca de uma escola melhor, para
entrar em uma faculdade pública”, esclarece. Não são poucos os
estudantes que estão ali, mas não pretendem seguir a carreira técnica. É
também o caso de Emerson Souza Junior, de 16 anos, que está no 2º ano
profissionalizante em Mecatrônica, mas está em dúvida se continuará na
área ou se arriscará em Letras ou Engenharia Química.
Ambos confirmam que, apesar do incentivo por parte dos professores e
da própria instituição para que o aluno prossiga na disciplina técnica
trabalhada em sala de aula, não há um estímulo direto para que atuem na
fábrica da mantenedora da instituição. “Lógico que acaba sendo mais
fácil ir para lá, mas muitos saem daqui para outras empresas, como a
Samsung ou P&G”, relata Emerson.
Projeto social conectado ao negócio
A Nokia financia a fundação por meio de incentivos fiscais concedidos pela Lei de Informática.
A instituição, que existe há 25 anos, nasceu com o objetivo de suprir
uma demanda do polo industrial de Manaus de profissionais qualificados
para a área. O prédio é público e toda a estrutura era mantida,
antigamente, pela Sharp, uma empresa de equipamentos eletrônicos. Com a
falência da corporação, há 10 anos, passou a ser financiada pela Nokia,
por meio da Lei de Informática.
Essa legislação concede às empresas produtoras de determinados bens
de informática a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados
(IPI), se um percentual do seu faturamento for investido em Pesquisa e
Desenvolvimento. Dessa forma, a FNE é, atualmente, um dos maiores
projetos sociais da Nokia do mundo.
Por outro lado, o presidente da filial da empresa no Brasil, Almir
Luis Narciso, deixa claro quais são as intenções da empresa com a
entidade. “A Nokia não faz projeto social que não esteja conectado ao
negócio.”
Investimento
Em coletiva de imprensa realizada em 30 de março, na própria Fundação
Nokia de Ensino, a empresa anunciou o investimento de R$ 40 milhões
para reforma do prédio e expansão de vagas. A proposta é aumentar a
quantidade de alunos de 1500 para 3500; professores contratados, de 27
para 70; e funcionários, de 70 para 130.
Além disso, a área atual de 5 mil m² construída será ampliada para 14
mil m², em um prédio que, segundo a diretora executiva Fabíola Bazi,
será construído com soluções sustentáveis. “Terá aproveitamento de água,
tetos solares para uma melhor eficiência energética e cobertura verde”,
afirma. A previsão é que em 2013 a obra já esteja concluída.
* A repórter Marjorie Ribeiro viajou à cidade de Manaus a convite da Fundação Nokia de Ensino.
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