por Roberto Saturnino Braga, da Plurale
Saiu uma reportagem no O Globo
esta semana sobre os êxitos da educação na Finlândia. Nada
surpreendente porque todos conhecem o alto nível de maturidade
humanística que este país atingiu, em conjunto com seus vizinhos
escandinavos. Mas algumas informações específicas sobre as razões deste
êxito são muito interessantes e dignas de sublinhar, ainda que não
desconhecidas entre nós.
A primeira é a confirmação da tão
evidente importância primordial do professor, o agente da formação, ou
da educação no conceito pleno, que compreende a valorização do bem-estar
das crianças e vai muito além da informação que pode ser lida nos
livros ou tirada do Google.
O professor lá é formado e
pós-graduado com cuidado em universidades de excelência; o professor tem
um salário alto, no mínimo igual ao de qualquer profissional de nível
superior no mercado; o professor é prestigiado na sociedade. A notícia
dá conta de que o magistério é a profissão mais procurada pelos jovens
finlandeses, preferida por um em cada cinco que terminam o ensino médio e
buscam a universidade.
A segunda é a da importância do ambiente
escolar, na perspectiva física e na psicológica. Isto faz pensar não só
em limpeza e conforto como na condução das atividades de maneira a
manter elevado entre as crianças o gosto pela escola, a motivação e o
sentimento de autoestima de toda a instituição. Impossível deixar de
lembrar aqui a luminosidade das faces das crianças que eu vi nos
primeiros tempos de funcionamento dos Ciep.
No que concerne ao
ambiente físico, vale a pena mencionar a resposta do educador finlandês à
pergunta sobre o uso de novas tecnologias no ensino, com o necessário
equipamento, uma pergunta obviamente feita na expectativa de uma
resposta bastante valorizadora das últimas modernidades, tendo em vista o
notável desenvolvimento tecnológico daquele país. A resposta foi
simples, mostrando que a tecnologia pode ser usada mas o foco principal é
mesmo a pedagogia, a velha busca do melhor e mais saudável
relacionamento entre seres humanos, professor e alunos, ainda que sem
tecnologia. É uma pedagogia que não atende às demandas do mercado, que
não sobrecarrega as crianças com saberes técnicos, com deveres de casa e
provas de verificação, mas prioriza o aprendizado feliz para a vida,
preocupa-se mais com o ensino da convivência do que da ciência.
A
terceira característica do excelente sistema educacional finlandês é de
cunho eminentemente político, democrático: trata-se da implementação
efetiva da igualdade de oportunidades para todas as crianças do país no
que diz respeito à educação. Todas as escolas são públicas; todas as
crianças estudam em escolas públicas do mesmo padrão, da mesma e boa
qualidade. Este é um compromisso político assumido pela nação finlandesa
há quase 50 anos; é uma firme política de Estado; um compromisso antigo
de toda a sociedade!
Bem, não dá para pensar em comparações nem
reproduções do sistema aqui no Brasil: a Finlândia tem cinco milhões de
habitantes, um pouco menos do que a cidade do Rio de Janeiro. Mas
certamente dá para tirar lições. Lições que são eminentemente políticas;
lições que valorizam muito mais a dimensão humanística da educação do
que a dimensão econômica de formação especializada para o mercado, como
vem fazendo a Coreia do Sul, tão frequentemente mencionada, e como
parece que está fazendo a China no seu projeto de expansão mundial.
São
lições para a política, sim, na medida em que só por meio da política
pode uma nação realizar um projeto de tal envergadura para a educação,
destinando-lhe os recursos necessários com absoluta prioridade sobre
todos os demais setores.
Desde há muito, desde o tempo do grande
senador Teotônio Vilela, ouço falar na importância de o Brasil ter um
projeto de desenvolvimento. Lembro-me que Teotônio escreveu um livro
sobre o tema, em parceria com o também grande Raphael Magalhães. Tenho
para mim que este projeto, mais do que um livro ou um documento escrito e
aprovado, é sobretudo uma linha política, uma diretriz política geral
sancionada eleitoralmente, que só pode ser detalhada na prática da sua
implementação. Hoje o mundo todo reclama a formulação de um modelo
econômico-social alternativo ao do falido neoliberalismo. Seria a
responsabilidade principal dos partidos de esquerda, em substituição ao
modelo socialista soviético, que também desmoronou. Acho até que há uma
expectativa, pelo menos na América do Sul, de que a esquerda brasileira
ofereça uma proposta neste sentido. Pessoalmente, quero me dedicar a
este esforço, de maneira muito modesta, mas sem deixar de contribuir com
algumas considerações e sugestões. E logo aproveito para dizer que, a
meu juízo, o primeiro ponto a ser listado na composição de uma diretriz
política desta natureza seria precisamente este compromisso absoluto com
a educação, seguindo as linhas das lições referidas neste artigo.
* Publicado originalmente no site Plurale.
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