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| Jovens de comunidades do Rio formam uma nova geração de produtores culturais |
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| 12-Mar-2012 | ||||||
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O GLOBO ONLINE RIO - Na quadra do Chapéu Mangueira, cachorros descansam sobre montes de areia ou passeiam preguiçosamente entre sacos de cimento, carrinhos de mão e operários. Tratores manobram, sobem e descem, também no ritmo da favela - esperando passar os meninos com uniforme de escola que chegam no fim da tarde, os carros que brigam com a ladeira, o pessoal que volta da praia. Não se vê o aviso possível de "Atenção - Homens trabalhando", mas ele é evidente no cenário e na fala de Eduardo Baptista. Sentado na pequena arquibancada da quadra, o jovem de 26 anos fala de sua experiência com a Maneh, produtora fundada por ele que realiza eventos na comunidade (os "Pagofunks da Jaqueira", a feijoada no Dia da Consciência Negra). Homem trabalhando. E no ritmo da favela - ele teve a ideia de montar a Maneh quando os eventos locais, antes organizados pelo tráfico, sumiram com a chegada da UPP. Eduardo é exemplo de um personagem que começa a se mostrar nas comunidades cariocas - reflexo do maior acesso à tecnologia e à universidade e da instalação das UPPs. Uma geração de jovens que produz cultura articulando o saber da rua com o da academia, os mecanismos de produção cultural formais (editais, patrocínios, diálogo com o Estado) com a informalidade necessária para que seus projetos existam num ambiente que não foi desenhado para recebê-los. E, sobretudo, jovens que assumem a frente da elaboração e viabilização de suas ideias - em vez de serem parte de uma ação cultural nascida de fora para dentro da favela. Homens - e mulheres, muitos adolescentes - trabalhando. Atenção. - Antes, a participação do jovem da favela em cultura era só como aluno de oficina. Agora ele é agente criador - resume Marcus Faustini, idealizador e coordenador da Agência de Redes para Juventude, iniciativa que tem como objetivo dar as ferramentas para que os jovens possam realizar suas ideias. - Não vemos esse menino como carente, mas como potente. Quando ele começa a dominar mais repertórios, passa a criar novas estratégias para atuar no seu território. Seis iniciativas que ilustram a fala de Faustini estão nesta reportagem: Maneh Produções (Chapéu Mangueira); Poesia de Esquina e Conexão Cultural (Cidade de Deus); Nós com Todos (Casa Branca); Bela Arte Jazz e Família Tetra (Cantagalo). Com propostas e visões diferentes, elas se aproximam como partes de um movimento que o jornalista e escritor Julio Ludemir chama de "revolução cultural". - Há meninos produzindo de tudo. De filmes a saraus, passando pelo funk, que não para de se reinventar. Estamos diante de uma grande revolução cultural com uma marca bem brasileira, que talvez seja do tamanho do que aconteceu no rock e no punk. Deley do Acari, grande poeta, intelectual sofisticado e produtor aguerrido (preso e torturado na ditadura por sua atuação como artista e ativista), só tinha as universidades para dialogar. Hoje o Binho da Vila Aliança (jovem sociólogo), a Viviane da Cidade de Deus (produtora do Poesia de Esquina) têm uma rede muito maior - explica Ludemir, um dos idealizadores da "Batalha do passinho". A relação profunda dessa geração de produtores com a identidade e a memória de sua comunidade é uma constante. Ela aparece no projeto da Maneh de organizar uma exposição do artesanato feito por moradores do Chapéu Mangueira nos últimos 30 anos no Galpão das Artes ("Nossa história está ali"). Sustenta também a declaração do cabeleireiro/produtor Key Tetra, do Cantagalo: "Você não tem que sair de sua comunidade, tem é que mostrar ao mundo a comunidade que está dentro de você." Ou no projeto A Arte Imita A Vida, do Borel, que recolhe histórias de moradores para dramatizá-las numa grande peça. E, por fim, está também nas referências que se cruzam no Poesia de Esquina - um de seus organizadores, Wellington França, de 54 anos, participou dos primórdios do movimento literário na Cidade de Deus, no final dos 1970, que hoje influencia Viviane de Sales, de 21 anos, sua parceira no sarau. - A "Nós" (revista cultural fundada pelo grupo de Wellington) é uma referência para o Poesia de Esquina (que publica um fanzine) - nota Viviane, declarando a influência também da Cooperifa, movimento de literatura de periferia paulistano. A jovem da Cidade de Deus serve de exemplo para outra característica da geração - a entrada da universidade na vida da favela ao longo da última década (por programas como ProUni ou pelo crescimento de uma nova classe C). Viviane é estudante universitária (na PUC), o que não é considerado uma exceção como há alguns anos ("Lembro quando minha irmã entrou na faculdade, pelo ProUni, foi um acontecimento, era a primeira da família a conseguir", testemunha). A Agência de Redes para Juventude (agenciarj.org) também pode ser vista como um elemento importante, não só pela percepção que teve da existência dessa geração como por seu trabalho de fomento. Depois de um período no qual os jovens de comunidades apresentam suas ideias e recebem informações e estímulos para que consigam viabilizá-la, são escolhidos 30 projetos (nem todos de cultura) para ganhar, cada um, R$ 10 mil (com patrocínio da Petrobras). Das seis ações visitadas nesta reportagem, quatro estão no grupo selecionado. Há o fator UPP, como nota Ricardo Henriques, coordenador da UPP Social (cujo site publicará uma lista de agentes culturais das favelas, com contatos, para estimular trocas): - Existe um vigor e uma variedade de iniciativas que historicamente já estavam germinando ali, mas que em boa parte estavam represadas e puderam despontar com a pacificação. Muitos dos jovens produtores também defendem que a pacificação possibilita, com o fim das barreiras impostas pelo tráfico, a circulação de ideias com mais fluidez - dentro da comunidade e dela com o resto da cidade ("Não queremos mostrar para o Rio que existe uma Cidade de Deus, mas que a Cidade de Deus também é Rio", explica Ricardo Fernandes, do Conexão Cultural). Mas eles também fazem ressalvas. Há o problema, por exemplo, de as diretrizes sobre produções de eventos nas favelas pacificadas não serem unificadas. Cada comandante faz suas regras - e em algumas comunidades, acusam os produtores, a intransigência bloqueia qualquer ação. A big band tocando na favela (no lançamento do Bela Arte Jazz), o vídeo documental sobre um jogo de futebol visto de um bar (do projeto CDD na Tela), a organização da riqueza anárquica do "passinho do menor" (com sua mistura de dança, música, vídeo e humor), vanguardas acadêmicas e populares se encontrando (Conexão Cultural, Poesia de Esquina)... Cruzamentos que - como a história da participação da favela na cultura brasileira já ensinou - podem gerar manifestações poderosas no futuro. - É um novo Tablado, no sentido de ser um espaço de formação de nomes que ouviremos falar muito daqui a alguns anos - resume Faustini.
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