Sem os muros PDF Imprimir E-mail
09-Dez-2011

CARTA CAPITAL

Um movimento no Brasil defende a educação fora da escola

Desescolarizar. Que palavra é essa? No Brasil, pela lei, toda família é obrigada a matricular os filhos na escola. Alguns pais começam, porém, a questionar a necessidade da permanência das crianças no ambiente escolar, como acontece em outros países. Na Espanha, cerca de 2 mil famílias ensinam os filhos em casa. Nos Estados Unidos, estima-se que 1,5 milhão sejam educados fora de um estabelecimento de ensino. No início deste mês, aconteceu na Colômbia o 3° Congresso Internacional de Educação sem Escola, promovido pela Universidad Nacional.

Uma experiência de desescolarização em Brasília tem sido contada por meio do blog desescolariza.blogspot.com. Oriundo de uma escola Waldorf, cujo método alternativo de ensino não o fez se adaptar ao modelo convencional, o adolescente Rafael Sastre.15 anos, há dois não está matriculado numa escola regular. "Meu conhecimento não servia para eles", reclama Sastre, que não é exatamente educado em casa - o pai, Edilberto, colombiano radicado no Brasil, faz questão de se diferenciar do homeschooling, como os americanos chamam a educação em casa.

O garoto tem aulas particulares de inglês, matemática, ciências e português. Para obter o certificado de conclusão do Fundamental, se submeterá agora ao exame supletivo. Sastre também pode dedicar-se a cursos que antes não tinha tempo para fazer, como cerâmica, música e luteria (fabricação de instrumentos de corda). Na casa onde mora com os pais e cinco irmãos mais novos, o garoto toca o violão que ele mesmo fez e exibe suas peças de cerâmica. À primeira vista, parecia uma opção econômica, mas as classes particulares tornaram, ao contrário, uma experiência caríssima. Então, por quê?

"Sou educador, fui secretário de Educação da minha cidade natal. E sempre pensei como seria na hora de educar meus próprios filhos", afirma o pai. "Observo que a escola infelizmente deveria priorizar o conhecimento, mas prioriza a disciplina. Também questiono o porquê de, no jardim de infância, sermos estimulados a pensar em arte, na expansão do conhecimento, e mais tarde tudo isso nos ser tirado. Vejo ainda que escola e educação não são a mesma coisa: a educação está em toda parte, a escola está em um só lugar."

E como o filho faz para ter amigos, se socializar? "Na verdade, hoje em dia é melhor, tenho muito mais amigos", diz o rapaz. "Nos cursos, as pessoas foram, como eu, sem obrigação nenhuma, então a conexão é automática, por causa dos interesses em comum. Nas aulas de cerâmica, têm pessoas de 60, 70 anos, que são meus amigos. Ambos, pai e filho, entusiasmam-se ao contar sobre as formas alternativas de transmissão de conhecimento, como as aulas de física a partir do skate. "E possível traduzir conceitos de velocidade, impulso, peso", garante o pai.

No ano que vem, no segundo grau, Sastre voltará a frequentar uma escola regular, "para experimentar". Pergunto a Edilberto se aconselharia a outros pais que não trabalham no setor de educação a fazer o mesmo. "Não poderia, acho que seria uma irresponsabilidade." Mas já pensa em repetir com o outro filho, Leon, de 12 anos, às vésperas de deixar a escola Waldorf onde estuda, que só vai até a 6a série. O menino está animado.

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